Todos os dias, na minha ida e vinda do trabalho, como já me referi num artigo anterior, viajo numa auto-estrada que liga Saarbruecken a Kaiserslautern. É através desta estrada que todo o tráfico da Alemanha passa em direcção à França e daí para Portugal, Espanha, mesmo Inglaterra Luxemburgo e Bélgica. Nesse meu trajecto diário, gosto de perder-me em meditações, - seguir pela estrada fora do meu pensamento.
Aqui na Europa, há só treze anos, vimos as estradas mudarem, especialmen-te no que diz respeito às fronteiras. No principio, lembro-me, precisàvamos andar acompanhados do passaporte a todo o instante. Para começar, nos nossos quatro anos na Holanda, vivìamos numa zona a que denominavam O Canto dos Três Países, entre a Bélgica, Holanda e Alemanha. Duas vezes por semana deslocava-me a Aachen, a cidade de Carlos Magno, para aí assistir a uma cadeira de Alemão como Segunda Língua. Para ambos os lados tinha muitas vezes que parar e mostrar o meu passaporte. Era desagradável. Hoje em dia ,nas nossas visitas à Holanda, Bélgica e França, tudo países aqui vizinhos, ainda sentimos um não sei quê inconfortável ao passar aquelas zonas; isso ao ponto de celebrarmos a nossa passagem de um país para o outro, como se isso ainda se tratasse de uma façanha fora de vulgar, digna de ser celebrada. Felizmente, a história tratou de modificar isso. Vivemos hoje uma Europa aberta; não mito, mas realidade.
Também, aqui na Alemanha, este país que molda e foi moldado pela história, é que se pode melhor observar o grau de influência que a maneira de pensar dos homens afecta a sua maneira de conduzir, o próprio sistema de estradas. Ora vejamos, não é, não, segredo nenhum, que foi Hitler que visou um país unido de Norte a Sul, Este a Oeste , ligado por uma rede de auto-estradas que seria ao mesmo tempo meio de comunicação tanto como meio de defesa. As estradas seriam as artérias do seu império.
Foram estas mesmas estradas que Hitler envisionou como o ponto de união,que viram a Alemanha dividida em dois países distinctos. Ainda me lembro bem, por exemplo, de uma viagem a Berlin, onde tive que mudar as licenças do carro que representavam As Forças Aliadas do Centro da Europa do AFCENT e trocà-las para as das Forças Armadas Americanas na Europa, antes de poder entrar na DDR, isso tudo em Helmsted, num dia frio de Fevereiro em 1985. Lembro-me como nos deram uma hora de viagem para atravessar o corredor desde Helmsted até Berlin, como tive que deixar para tràs um colega Alemão que foi interdito de viajar comigo, e uma outra colega Canadiana pela mesma razão de não possuir um passaporte Americano. Lembro-me de um momento para o outro a estrada mudar de aparência, como se tivessemos passado de um mundo para um outro. Lembro-me do ambiente hostil e escuro, mesmo macabro do outro lado, como se lá houvesse algum vulcão em actividade. Definitivamente, para diferentes maneiras de pensar, diferentes eram as estradas.
Mais tarde, em 1989 e 1990 vimos por fim as nossas estradas serem invadidas pelos lentos e ferrugentos Trabantes, os carrinhos da Alemanha Leste. Era a história em rodas a marcar o seu lugar nas estradas do Ocidente. Com eles trouxeram tendências reprimidas que se transfor- maram em novos ódios e novos conflitos. Buscaram na xenófobia, a solidariedade teutónica que os afirmava como Alemães o que no fim os envelhacou e os envelhaca. Depois, como vieram, desapareceram esses carrinhos rídiculos.
Quanto à maneira de conduzir Alemã, é conhecido, que na Autobahn, como se denomina a auto-estrada Alemã, não há limite de velocidade. É raro ver a polícia Alemã na auto-estrada. Aliás, os Alemães depois da Segunda Grande Guerra Mundial, não apreciam a presença da força. Onde quer que a polícia vá, não são bem vistos. Por isso mantêm, como se diz em Inglês, um “low profile”. Nas estradas só vão , se há algum engarrafamento, ou desastre. Por isso a estrada é livre. Cada um anda à velocidade que quer. Isso faz com que a auto-estrada se torne para alguns, autênticas pistas de corridas. Até, não minto ao afirmar que já vi um dia à noite, um carro produzir lume pelo tubo de escape. É um “Arreda que eu quero passar.”
Além disso, toda a selvajaria e intolerância de que são conhecidos os Alemães , também aí se reproduz. Não deixam eles nenhum espaço entre os seus carros e os carros em sua frente. Aproximam-se em velocidades perigosíssimas, para obrigar os da frente a meterem-se para o lado ou apressarem o passo. Conduzir a 80-90 milhas à hora, ou 140-160 kilómetros, pode-se considerar devagar. Conduzo a essa velocidade, e a maior parte dos carros fácilmente se aproxima e se afasta de mim. Como é proíbido apitar, axionam os faróis ao longe, que é para intimidar os outros e a obrigar que se retirem da sua frente. Se Berlin fica a oito horas, fazem eles um cálculo elementar de quanto tempo querem fazer essa viagem. Se forem a duzentos chegarão em quatro horas. O que fica entre Kaiserslautern e Berlin pouco lhes importa. Tornam-se assim,o seu próprio cruise control. No momento que fazem um cálculo, é dificil fazer-lhes ver as consequências. Não medem aos meios, para conseguirem os fins. Isso explica a tenacidade em que encetaram a eliminação de todos os Judeus da maneira macabra em que o fizeram. Hoje em dia empregam essa mesma tenacidade para se oporem ao lixo nuclear-especialmente se fôr na sua terra, e á reciclagem. Até o mês passado isso foi um ponto de foco das notícias aqui na Alemanha. Num país de guerras, faz-se a guerra ao diabo, se fôr preciso, logo que se o faça com o concenso de todos.
Depois, da mesma maneira que conduzem, se comportam no dia à dia. Obedecem à lei, se ela existe, como os cavalos obedecem aos freios, se os colocarem. Se a lei não existe, ou se existe em seu favor, aí se revelam, os Alemães que o mundo conhece. É um povo que obedece cegamente à lei judiciária. Fora essa, não conhecem nem piedade, nem compaixão, nem paciência. Por isso há leis para tudo; há leis para que não se faça barulho entre o meio dia e as três horas ,diáriamente; para que se não corte relva nessas horas ou se faça qualquer barulho que incomode os vizinhos. Isso é a hora do descanso para os velhos e bébés, assim como a hora dos estudantes se concentrarem no trabalho de casa, pois aqui saiem ao meio dia e meia da escola. Depois das sete horas da noite, volta-se denovo a intolerar o destúrbio- é o seu “Feierabend”, e os Alemães podem trabalhar duro, mas amam o rito, e vir para casa e descansar é uma rotina sagrada. Dedicam-lhe todo o entusiasmo que dedicam ao trabalho; é a hora de beber, falar com amigos, ir ao restaurante, ler livros e dedicar-se a um hobby. Quanto a outras leis, bem, ainda há aquela que passou há pouco tempo que protege a pessoa de ser vítima da exaltação de outrem. Isso é , no caso de acidentes, quem berra perde o caso- facto. Também há leis para para quem mora em casas de apartamento, para que as escadas sejam lavadas, assim como o passeio seja varrido todas as semanas, especialmente aos Sábados de manhã. Há leis que se proibe de trabalhar ao Domingo, ou lavar o carro, cortar a relva, etc. nesse dia. Depois, há leis que protegem as formigas - em Idar-Oberstein, fiquei um dia a saber disso , quando alguém numa forma azeda me o soletrou numa ocasião em que eu e o meu filho passeàvamos pelo bosque e admiràvamos um grupinho delas. Também há leis para protecção às rãs e tartarugas nesta altura do ano, quando atravessam a estrada no seu passeio de Primavera. Metem -se avisos, e chega-se mesmo a fechar certos troços da estrada para acomodar esses répteis. Enfim, o próprio Hino Nacional Alemão alude à importância da justiça para o bem comum, o seu “Einigkeit, und Recht und Freiheit…” ou o seu apêlo de União, Justiça e Liberdade….” A Justiça portanto está em função da sociedade em geral e não para beneficio próprio como na América. Quem transgride aqui a lei, avenha-se, pois, ao contrário de na América, todo o litigado, está culpado, até provar a sua inocência. Ninguém por isso brinca com a lei e a mete a seu dispôr fácilmente. O jogo já é mais difícil.
Depois, assim como a estrada, que pelo seu conservatismo, se reduz a quatro faixas, duas para cada lado, a de velocidades e a de manobras lentas, o seu Leste e Oeste, o Alemão só compreende duas maneiras de actuar, ou sim, ou não, as velocidades vertiginosas, ou o passo lente, o ódio ou fascínio- eles, são por exemplo, no mundo o povo que mais viaja. Fascina-o o estrangeiro. São também no mundo o povo que mais odeia o forasteiro- aliás, o Far West Americano fascína-os, pois foi modulado por homens do seu tipo. Aliás, muitos conhecidos nossos explicam isso pelo facto da América ainda ter uma boa costela Teutônica; que foi desta zona da Europa que sairam a maior parte dos imigrantes da América, já na sua fundação , ao ponto de segundo alguns conhecidos haver a um ponto da história Americana , que desconheço, uma ocasião em que por um voto se decidiu ser Inglês e não em Alemão a língua de comunicação dos novos cidadãos. Decerto, se olharmos a história, há grandes afinidades entre estes dois países, senão vejamos, o porquê deste apoio militar tão arreigado dos Estados Unidos aqui na Alemanha? Fosse este país Portugal, Espanha, México ou outro qualquer país a Sul, ter-se ia a América involvido na sua protecção ou não teria antes a anexado e a tornado num território seu. Fosse qualquer paízinho a Sul, ficariamos por aqui, mesmo quando a União Soviética já não se trata de uma ameaça? Depois, teria sido interessante entrevistar Rudolf Hess, que os Aliados mantiveram em sigilo, e interrogà-lo sobre que qualidade de paz iria propôr aos povos Anglo-Saxões? Porquê também o seu suicídio? A família não acredita que tivesse tido sido isso, que a sua morte se deveu a uma conspiração dos próprios aliados- que o mantiveram fora do alcance por alguma razão maior do que justiça pelos crimes do Socialismo Nacional. Há mistérios que ficaram da Segunda Grande Guerra Mundial, que ninguém ousa desvendar, ou que não convêm desvendar. Num mundo de Cain, manda o forte e o que está por cima, não ouse ninguém lhe tirar o lustre. Na estrada manda quem tem os melhores veículos, o resto que se arrede.
Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha
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