Dos meus tempos de criança, daquele mundo lusco-fusco de experiências inseridas entre muita horas de sonecas, de mistura dos sonhos com o real , lembro-me do "Gato Milzoito."
Ele vinha sempre por altura das festas, quando se cozia massa e biscoitos, as guloseimas que tanto ambicionàvamos. Isso é, a nossa mãe explicava que ele tinha passado e levado tudo consigo, todas aquelas brandeirinhas e biscoitos sucolosos que havíamos visto sair do forno. " Não temos mais massa," dizia ela, " Foi o Gato Milzoito."
Aos poucos aprendemos a detestar esse gato larápio. Era um ódio sincero, um ódio vero por esse gato mágico que pela calada da noite se introduzia em nossa casa e roubava o que lhe não pertencia. Imaginàvamo-lo em parte com características humanas, um gato homem papão, um gato cigano, um felino malvado.
Ora , um dia, brincando em frente da nossa casa, nós e crianças vizinhas, as mesmas com quem lutàvamos em guerras de vimes, vimos aproximar-se um gato. Ao contrário dos outros gatos que nos observavam à distância, esse, mansinho, aproximou-se o bastante para quase o tocarmos. Então alguém se lembrou do Gato Milzoito. "É o Gato Milzoito! É o Gato Milzoito!" Como um rastilho a idéia incendiou-nos.
Em nenhum tempo ficamos todos prontos a castigar esse gato por todos os actos de roubo de massa e biscoitos comitidos até então. Corremos atrás do gato aos gritos. O pobre do gato viu-se assim perante um motim de crianças dipostas a fazer-lhe a vida miserável. Fugiu para aqui e para ali, seguido pelos nossos berros e a exaltação. Por fim lá encontrou uma pilha de lenha e esgueirou-se por uma frecha até ao fundo negro onde o não podíamos atingir com os nossos paus varapaus. Nós bem espetàmos e gritàmos cá de fora, mas o gatinho teimou em nunca mais aparecer e reduzir-se ao silêncio e ao abandono debaixo de toda aquela lenha.
Dias mais tarde, o nosso pai informou-nos que havia encontrado o gatinho que fora o alvo da nossa fúria e alegria cruel. Tinha aparecido morto debaixo da lenha. Intímamente sabíamos que o tal bichinho que miava aflito vítima da nossa loucura não era nenhum Gato Milzoito, que esse último era antes irreal, imaginário. Como carrascos ou algozes novos no ofício, sentímo-nos combalidos com a sua morte---nunca tínhamos imaginado que a nossa brincadeira poderia trazer tais consequências. Quanto ao Gato Milzoito, nunca mais soubemos dele, mas aquele dia de pogrom ao gatinho doente que se nos deparou no caminho nunca mais realmente esquecemos.
Mais tarde aprendemos sobre Hitler e a Segunda Guerra Mundial e como um povo inteiro como nós em crianças encontram um bode expiatório para satisfazer a sua fantasia cruel.
Na vinda para os Açores, em Baltimore, enquanto esperavamos pelo avião que se demorava, tomei a jaula do meu cão e para não importunar os outros viajantes com o seu ladrar constante, procurei um recanto onde a presença humana não lhe fosse tão ameaçadora. Assim, encontrando um banco num corredor junto a uma janela para o exterior, sentei-me de costas viradas para o interior do terminal a fim de confortar o cão que uma tempestade eléctrica e uma viagem acidentada havia colocado no auge do nervosismo.
Estava eu a olhar o exterior por enormes janelas, quando reparei que para a minha esquerda pelo corredor fora se aproximava um homem moreno, de fisionomia mediterrânea, algo que no contexto da sociedade piano luxuoso de Anglo-Saxões ou negros dos Estados Unidos, me chamou a atenção. De súbito apercebi-me que sentados no mesmo banco do que eu estava um pai e um filho de fisionomia Anglo-Saxão, daqueles que parecem cascas de ovos brancos, herméticos, sem côr alguma, mas algo rançosos em aspecto. Riam e sussurravam algo entre si conforme seguiam a mesma pessoa que me havia chamado a atenção. Percebi logo que, de uma forma canibal, faziam pouco do pobre homem. Ouvi mesmo um desdenhoso "Italian" e qualquer termo pejurativo. Continuaram na sua troca de comentários mordazes, conforme o tal senhor se aproximava mais. Cheguei a ouvir um, "mãos de esquilo," o que confirmou a minha suspeita do que os dois ovos rançosos se divirtiam à custa de uma vítima. Confirmado o teor da sua conversa, virei-me eu para eles e de uma forma fixa expressei o nojo que eles me faziam sentir. Eles entreolharam-se e perceberam que eu havia interceptado a sua conversa. Calaram-se logo. Em pouco tempo levantaram-se e dirigiram-se para um outro lado da sala de espera do aeroporto.
Vindo de uma zona da Alemanha onde existiam perto de dois mil agrupamentos neo-nazis e o chefe do maior agrupamento até vivia na mesma aldeia que nós, chocou-me essa América cruel e divestida de sentido de dignidade humana dos dois Americanos, que, divertidos com o aspecto de um homem mediterrânio de idade no aeroporto de Baltimore, faziam na pessoa dele o seu passatempo deshumano.
Quando julgamos que o progresso nos fazia todos mais sensíveis, mais compreensivos, noto que no país que devia ser o paragão da compreensão, existe a crueldade, a falta de humanidade, o terrorismo que caracterizou a Alemanha dos anos 30. Tento conformar-me os meus pensamentos exaltados com um "Coitados, não sabem o que fazem."
Com dois mil anos de assim se pensar porém, cresce uma revolta. Quantos mil anos mais serão precisos para que a pessoa humana, alemã, anglo-saxão, etc. venha a saber o que faz? O que se deve fazer para que abrem os olhos? Quantos Cristos se terá que cruxificar para que a pessoa humana deixe de ser idiota, patéticamente néscia?
Aqui na Terceira... bem, depois de quatro meses pergunto-me a mim mesmo, que guloseimas é que os pobres touros desta ilha pilharam para que todo o terceirense, como nós ao gatinho milzoito da nossa infância, se deleite em torturar, molestar, fazer sofrer tais bichos?
Penso, não seria não nenhuma má idéia se pudessem exportar touros daqui para a América do KKK ou para a Alemanha dos Neo-NAZIS, até para a Sérbia e o Kosovo, ou qualquer outro lugar do mundo onde um ser humano ache uma necessidade premente o seu fazer pouco, abusar, ameaçar, fugir à dignidade de outra pessoa humana por passatempo favorito.
É isso, a Terceira, esta ilha de Jesus Cristo, faria um negoção com o exportar touros para esses núcleos onde há sede e fome de sangue alheio. Seria um deixar correr os touros pelas avenidas de Berlin, Londres, Vienna, Hamburg, Chicago, Califórnia, Georgia, mesmo na base americana aqui, para diminuir a tenção que divide um tipo humano de outro tipo humano. Estou certo de que se assim o fizessemos, haveria por fim mais compreensão entre as pessoas de âmbitos, línguas, culturas e fisionomias diferentes. Saciar-se-ia a tendência humana de canabalismo para com outros membros da sua raça. Satisfazer-se-ia a maldição de Cain. Diluir-se- ia com o sangue taurino o instincto humano deshumano, diabólico, de desdenhar, eliminar ou fazer sofrer o próximo.
Assim, quem quer começar o negócio? Escutando uma ária Irlandesa por ilhas do pensamento, ergo o meu, "Viva aos touros da Terceira!" "Viva às touradas à corda!" O que o mundo precisa são mesmo touros assim, que trepem pelos muros e corram pelas ruas e estradas fora e façam os corações bater, serem transportados a mundos e realidade trogoloditas por instantes , possam despertar o primitivismo, dar-lhe expressão e "pernas para que te quero," a seguir. Desfazer-se-ia assim de toda a energia primitiva recalcada no íntimo da pessoa humana e uma melhor tolerância para com o próximo que se deixaria de usar ou abusar por desporto ou graça.
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