Por estas paragens do Norte da Europa, é raro que me não me lembre do
Nordeste da minha terra em S. Miguel. Tinha eu quatro anos quando o
meu pai comprou uma casa nova na cidade de Ponta Delgada e lembro-me
desse dia de uma forma vital como todos os dias de mudanças como
tantas outras mudanças que já vivi pela vida fora. São as coisas que
se emalam, empacotam, uma casa vazia, o camião à porta, as
despedidas, o partir, dizer adeus quebrar com o passado.
De um dia para o outro éramos trasladados de um mundo remoto no centro
do nosso universo de experiências virgens para um mundo totalmente
diferente. Era uma casa de portas brancas e luzidias, de uma sala com
parket envernizado e corredor com chão de azulejos brancos e pretos
como em jogo de xadrez. Das suas janelas altas avistávamos o mar e o
horizonte a elas paralelas e um Sol Egípcio, amarelo esbranqueado. No
outro lado da rua e para além do muro de um prédio, estendia-se uma
superfície branca de vidros de estufas e um mar de paredes e telhados
de outras casas.
Era bonita a cidade de onde vivíamos. Ali sobre os muros dos prédios
circumvizinhos, vinham canários de papo côr de gema, pousar e quanta
vez deixar ali o seu cântico de canto de rua. Haviam vinhas num outro
prédio próximo e em dias quentes, sobre os muros deslizavam ou
simplesmente se estendiam a beber a luz do sol largatixas de cor verde
. Ali no meio da cidade respirava-se campo, respirava-se a algo que
sem podermos expressar eram terras do Sul. Assim obedecendo ao risco
do nosso destino, já criança vivia esse apreciar dois mundos
pertencendo e deixando de pertencer a eles ambos.
Mais tarde, na minha adolescência, de novo vivia-se a mudança, era a
carta de chamada, o visto, o passaporte, a papelada e a viagem de
avião deste para aquele universo mais longe. De novo a casa vazia, os
quartos onde soavam ecos, as despedidas, o arrojo de alma, o
aeroporto, o vento, a altura e um dizer adeus-- cortarem-se-nos raízes
que ficavam para sempre ligadas à própria alma.
Depois surgia a América de um dia de Janeiro e a promessa de um
futuro recebida à luz de um Sol afogueado entre um mundo de gelo. Ali
como em criança, quantas vezes se nos abordavam com a eterna pergunta,
"E onde é que gostas mais de estar, aqui ou lá?"
No risco da vida depois mais uma vez houve esse partir à procura de
melhor sorte; de novo atrás ficavam os quartos vazios, a alma erguida
numa ilusão qualquer de viagem, de além, de aventura. A Holanda
esperava-nos com suas casas castanhas e portões verdes de quintas,
lezírias maravilhosas e os plátanos em fila pelas planícies
fora. De novo aí surgia a pergunta, "Aqui ou lá?"
E esse "Aqui ou lá?" segue-me, esse "Aqui ou lá?" entre o desejo de
uma terra prometida onde se possa um dia ficar, eternamente ficar sem
deixar quartos vazios, um mundo empacotado, as despedidas, os
horizontes para sempre mais além e aquém e nunca conseguidos.
Com o tempo, por fim aprendemos a discernir esse lá aqui, a
sobrepormos mundos ou reacharmos mundos perdidos onde quer que
estamos. Assim hoje encontramos o Nordeste neste quê de paisagem no
dialecto desta gente à nossa roda com os seus "as" fechados como
quando na nossa aldeia diziam "olto lo!", "para boxo" e "guarda-foto."
Mais tarde é a América que entrevistamos nas ruas de Amsterdão ou de
Londres e no próprio gutural Holandês, e a Holanda no ambiente de
Boston. Cada mundo que se deixou se manifesta em cada mundo
achado-por fim já nos apetece ficar e não mais voltar.
Não mais voltar, porque, depois de tanto partir e chegar, anos e anos
de nos afastarmos, cada chegar ou voltar já se torna até mais um
partir, com seus ecos de coisas acabadas, memórias desfeitas, coisas
mudadas, fados findados. Isso é voltar, torna-se partir e partir
torna-se voltar e de súbito vemo-nos ficar nesse estado de coisas de
quem nunca partiu no fim, nem nunca mais volta afinal.
Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha
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