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Silvério Gabriel de Melo


Pelas Estradas do Pensamento - Aqui ou Lá


Por estas paragens do Norte da Europa, é raro que me não me lembre do Nordeste da minha terra em S. Miguel. Tinha eu quatro anos quando o meu pai comprou uma casa nova na cidade de Ponta Delgada e lembro-me desse dia de uma forma vital como todos os dias de mudanças como tantas outras mudanças que já vivi pela vida fora. São as coisas que se emalam, empacotam, uma casa vazia, o camião à porta, as despedidas, o partir, dizer adeus quebrar com o passado.

De um dia para o outro éramos trasladados de um mundo remoto no centro do nosso universo de experiências virgens para um mundo totalmente diferente. Era uma casa de portas brancas e luzidias, de uma sala com parket envernizado e corredor com chão de azulejos brancos e pretos como em jogo de xadrez. Das suas janelas altas avistávamos o mar e o horizonte a elas paralelas e um Sol Egípcio, amarelo esbranqueado. No outro lado da rua e para além do muro de um prédio, estendia-se uma superfície branca de vidros de estufas e um mar de paredes e telhados de outras casas.

Era bonita a cidade de onde vivíamos. Ali sobre os muros dos prédios circumvizinhos, vinham canários de papo côr de gema, pousar e quanta vez deixar ali o seu cântico de canto de rua. Haviam vinhas num outro prédio próximo e em dias quentes, sobre os muros deslizavam ou simplesmente se estendiam a beber a luz do sol largatixas de cor verde . Ali no meio da cidade respirava-se campo, respirava-se a algo que sem podermos expressar eram terras do Sul. Assim obedecendo ao risco do nosso destino, já criança vivia esse apreciar dois mundos pertencendo e deixando de pertencer a eles ambos.

Mais tarde, na minha adolescência, de novo vivia-se a mudança, era a carta de chamada, o visto, o passaporte, a papelada e a viagem de avião deste para aquele universo mais longe. De novo a casa vazia, os quartos onde soavam ecos, as despedidas, o arrojo de alma, o aeroporto, o vento, a altura e um dizer adeus-- cortarem-se-nos raízes que ficavam para sempre ligadas à própria alma.

Depois surgia a América de um dia de Janeiro e a promessa de um futuro recebida à luz de um Sol afogueado entre um mundo de gelo. Ali como em criança, quantas vezes se nos abordavam com a eterna pergunta, "E onde é que gostas mais de estar, aqui ou lá?"

No risco da vida depois mais uma vez houve esse partir à procura de melhor sorte; de novo atrás ficavam os quartos vazios, a alma erguida numa ilusão qualquer de viagem, de além, de aventura. A Holanda esperava-nos com suas casas castanhas e portões verdes de quintas, lezírias maravilhosas e os plátanos em fila pelas planícies fora.
De novo aí surgia a pergunta, "Aqui ou lá?"

E esse "Aqui ou lá?" segue-me, esse "Aqui ou lá?" entre o desejo de uma terra prometida onde se possa um dia ficar, eternamente ficar sem deixar quartos vazios, um mundo empacotado, as despedidas, os horizontes para sempre mais além e aquém e nunca conseguidos.

Com o tempo, por fim aprendemos a discernir esse lá aqui, a sobrepormos mundos ou reacharmos mundos perdidos onde quer que estamos. Assim hoje encontramos o Nordeste neste quê de paisagem no dialecto desta gente à nossa roda com os seus "as" fechados como quando na nossa aldeia diziam "olto lo!", "para boxo" e "guarda-foto."
Mais tarde é a América que entrevistamos nas ruas de Amsterdão ou de Londres e no próprio gutural Holandês, e a Holanda no ambiente de Boston. Cada mundo que se deixou se manifesta em cada mundo achado-por fim já nos apetece ficar e não mais voltar.

Não mais voltar, porque, depois de tanto partir e chegar, anos e anos de nos afastarmos, cada chegar ou voltar já se torna até mais um partir, com seus ecos de coisas acabadas, memórias desfeitas, coisas mudadas, fados findados. Isso é voltar, torna-se partir e partir torna-se voltar e de súbito vemo-nos ficar nesse estado de coisas de quem nunca partiu no fim, nem nunca mais volta afinal.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha


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