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Silvério Gabriel de Melo


Pelas Estradas do Pensamento - A Linha de Divisão


Nestes dias cinzentos da Alemanha, a estrada que percorro de madrugada--o mundo todo é uma constante nuvem baixa, nevoeiro penetrante e frio que tudo cobre e envolve, dias, semanas, meses a fio.
Neste mundo melancólico onde só por fé se acredita no Sol, pois a sua presença no céu é tão rara e quando presente, tão insignificantemente pálida e ausente que nem parece o astro rei.

Pela estrada fora entra dia, sai dia encontramos uma cortina de névoas que tansformam um mundo numa paisagem surreal, onde muitas manhãs, dias inteiros, até a estrada deixa de existir e não se sabe ao certo em que direcção é que seguimos devido à fraca visibilidade.
São nesses dias que as linhas brancas que dividem a auto-estrada em duas linhas têm maior significado. Tornam-se num mundo imerso em bruma , a única e real presença da estrada-- traço após traço. Infinitivamente surgem de dentro do nevoeiro na sua função guia, dirigindo o tráfico e mantendo a direcção num mundo sem direcção.

Essa linha quebrada de divisão, torna-se na estrada a única coisa certa, em que se pode confiar-- uma corrente visível, que nos indica a direcção a seguir-assim criada para função da estrada. Como essas linhas brancas, as contas dos rosários , Avé-Maria após Avé-Maria, na sua simplicidade também nos ligam em linha recta com o coração ao infinito e também estão em função de uma estrada--aquela do Espirito.
Por isso, "Rezai o Terço," é o pedido do Espirito em Fátima, por isso como é bonito ver aqueles que creiem rezar o terço, com fé rezarem o terço, com esperança rezarem o terço.

Todas as manhãs conduzindo o meu carro aprendo da estrada o segredo do rosário e a estrada à sua maneira ensina-me a compreender o meu pai e aquele povo da minha terra que rezava sem saber porque rezava e para que rezava, na sua confiança total em Deus e no seu caminho.

Sem fé para poder rezar como o meu povo reza, sigo a linha de divisão e na primeira intercessão com uma outra estrada-Pai Nosso, dou saída para lá denovo encontrar traço após traço a linha de divisão que me leva ao meu destino, dia após dia, neste mundo eternamente cinzento, eternamente mundo.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha


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