Nestes dias cinzentos da Alemanha, a estrada que percorro de madrugada--o mundo todo é uma constante nuvem baixa, nevoeiro penetrante e frio que tudo cobre e envolve, dias, semanas, meses a
fio. Neste mundo melancólico onde só por fé se acredita no Sol, pois a sua presença no céu é tão rara e quando presente, tão insignificantemente pálida e ausente que nem parece o astro rei.
Pela estrada fora entra dia, sai dia encontramos uma cortina de névoas que tansformam um mundo numa paisagem surreal, onde muitas manhãs, dias inteiros, até a estrada deixa de existir e não se sabe ao certo
em que direcção é que seguimos devido à fraca visibilidade. São nesses dias que as linhas brancas que dividem a auto-estrada em duas linhas têm maior significado. Tornam-se num mundo imerso em bruma , a única e real presença da estrada-- traço após traço. Infinitivamente surgem de dentro do nevoeiro na sua função guia, dirigindo o tráfico e mantendo a direcção num mundo sem direcção.
Essa linha quebrada de divisão, torna-se na estrada a única coisa certa, em que se pode confiar-- uma corrente visível, que nos indica a direcção a seguir-assim criada para função da estrada. Como essas
linhas brancas, as contas dos rosários , Avé-Maria após Avé-Maria, na sua simplicidade também nos ligam em linha recta com o coração ao infinito e também estão em função de uma estrada--aquela do Espirito.
Por isso, "Rezai o Terço," é o pedido do Espirito em Fátima, por isso como é bonito ver aqueles que creiem rezar o terço, com fé rezarem o terço, com esperança rezarem o terço.
Todas as manhãs conduzindo o meu carro aprendo da estrada o segredo do rosário e a estrada à sua maneira ensina-me a compreender o meu pai e aquele povo da minha terra que rezava sem saber porque rezava e para que rezava, na sua confiança total em Deus e no seu caminho.
Sem fé para poder rezar como o meu povo reza, sigo a linha de divisão e na primeira intercessão com uma outra estrada-Pai Nosso, dou saída para lá denovo encontrar traço após traço a linha de divisão que me leva ao meu destino, dia após dia, neste mundo eternamente cinzento, eternamente mundo.
Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha
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