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Silvério Gabriel de Melo


Por Estradas do Pensamento - A Feira do Livro


Em Outubro, tivemos a oportunidade de visitar a Feira do Livro em Frankfurt, para aí nos encontrarmos com o Senhor Manuel Luis da Ponte de St. Paul, Missouri, uma nossa amizade de letras, mas que desconhecia pessoalmente. Assim, numa manhã de Sábado, atravessámos a Alemanha desde a zona de Landstuhl, fronteiriça com a França, até ao rio Main e Frankfurt am Main, numa viagem de duas horas que valeu a pena.

Já Thomas Wolfe se referia às "raças" ou estirpes irmãs da humanidade como aquelas segundo as profissões e tendências de cada um. Assim além das raças segundo a cor da pele e fisionomia humana, há segundo Thomas Wolfe a raça dos professores, dos mecânicos, dos enfermeiros, das costureiras, dos escritores, dos autores, dos editores, carpinteiros, doutores,etc., cada, segundo a sua vocação. Assim, com o Sr. Da Ponte une-nos o mundo das letras e o amor aos livros, à literatura, ao saber, e isso tudo com a base de sermos ambos de S. Miguel e ambos emigrantes num mundo mais vasto e mais aberto, essas as nossas afinidades. Em outras palavras, pensamos na mesma frequência e isso faz-nos respeitarmo-nos mútuamente.

Portanto naquele Sábado viajamos até à Feira do Livro com dois intuitos respectivamente, o de nos encontrarmos com o Sr. Manuel Luis da Ponte e o participarmos na Feira, que até era dedicada este ano a Portugal, à nossa literatura, cultura e mundo.

Depois de entrarmos no recinto, levou-nos uma hora asseguradamente de constante andar através de enormes corredores e por passadeiras girantes entre o ir e vir de centenas de pessoas, antes que chegássemos ao salão onde se encontrava a parte da exposição Portuguesa e onde poderia vir-me encontrar com o tal Senhor. Logo na entrada do mesmo salão, por acaso, enquanto estávamos a ler os panfletos sobre o evento e a tentarmos uma certa orientação, ouvimos alguém mencionar o nome Sr. Manuel da Ponte. Assim, entre milhares de pessoas, foi fácil o nosso encontro; coincidência quase a propósito.

Na companhia do Sr. Manuel da Ponte e com o seu à vontade, conseguido pelas muitas ocasiões nessa Feira e sua função de participante assíduo, fomos assim introduzidos a esse mundo do livro. Falando e escutando lá fomos entre os diversos stands, para nos irmos sentar como velhos amigos em frente ao stand da editora da Europa América. Entre o burburinho de milhares de vozes, destinguia-se a música folclórica Portuguesa. Foi agradável escutar o Sr. Manuel da Ponte e aprender dele muito sobre a Feira e o mundo do livro. Ali na sua presença estávamos como em qualquer bairro da nossa terra, rodeados por os nossos velhos amigos, os livros, que expostos por todos os lados davam-nos a sensação daqueles meninos debruçados às cancelas , portas ou janelas ou nos cantos das ruas da nossa cidade em dias de festa, com um sorriso bonito e uma alegria inocente, com sua promessa de encantos, e confidências pueris.

Interessante é que essa Feira tem lugar em Frankfurt, berço de Goethe e mais interessante que ficamos bem perto de Mainz e capital do livro, onde Gutenberg, em 1450 conseguiu imprimir os primeiros livros-- invenção que haveria de revolucionar o mundo e dar asas ao espírito humano. Também interessante que por coincidência Mainz também era a cidade centro céltico de um culto ao Sol, o Sol que espalha a sua luz e coincidentemente--coincidência quase a propósito, ocasiona a vida sobre o nosso planeta.
Desse culto do Sol destingue-se em Mainz e arredores de Mainz, em toda a região do Reno, vestígios desse culto, tradições tais como os festejos de S. Martinho, o próprio Natal e de certo o mais importante o Carnaval ou Fasching de Mainz--Mainz que juntamente com Cologne é uma cidade motor de tais celebrações, o ponto fulcro dos grandes festejos por esta zona. Num mundo sem luz, como é a Alemanha, especialmente no Inverno, o Sol, a luz, é como a chuva nos desertos do Sudoeste Americano. A sua falta torna-se o foco de toda uma cultura, razão para muitos festejos e maneiras de ser. O livro nasceu e propagou-se assim como se propagaram as vinhas nesta zona da Alemanha. Com a uva, mais um fruto desse ambiente de luz fraca e quase inexistente no Inverno. Ambos substitutos do Sol e dos seus encantos e calor, capaz de aquecer a alma e os sentidos.

Assim, se um copo de vinho nos aquece, o livro é à sua maneira um vinho especial. A própria imprensa em si, é uma dádiva e contributo da cultura latina por este lados. Nesta era de intercomunicações, em que gradualmente a Internet toma o lugar do livro e cria um mundo que o dispensa, um bom livro, como um bom vinho, nunca perderá o seu encanto e sua magia e a cultura que o produz e o explora, uma cultura de bom gosto.

Portanto essa visita à Feira do Livro em Frankfurt, na companhia agradável do Sr. Manuel Luis da Ponte foi muito importante para mim, especialmente quando Portugal era o ponto foco dessa feira.
Desconhecendo o Portugal dos últimos trinta nos, desejei para Portugal uma vontade maior de ler do que a que conhecia nos nossos tempos.
Portugal foi sim herói nos mares, mas infelizmente nos mares dos livros e do intelecto, a minha impressão de há trinta anos, é que somos um povo que pouco lê e escreve. Talvez porque não nos falta o Sol e a luz e o clima não nos convida ao espírito compenetrado que se necessita para uma leitura.

Nessa modulação não chegamos a ir até muito longe. Num mundo cheio e Sol como é Portugal, qualquer substituto dele torna-se supérfluo. O que falta (às vezes) em Portugal é a chuva ou a sombra amiga e fresca, onde uma bilha de água apetece mais que um vinho. Portanto a nossa alma em Portugal atrai-se mais por águas límpidas. A nossa própria língua tem uma qualidade fluídica com respingos e sons que fazem lembrar a água a correr e aí canta-se o fado à noite, emprestando-se a qualidade dos dias quentes.
Num mundo que o calor do Verão torna lento e lânguido, o nosso foco é mesmo a rapidez de um vira ou de um fandango. Temos assim a qualidade da chama à procura da água.
Essa procura, portanto é o nosso contributo ao mundo. Foi nessa busca incontida que descobrimos mundos. É nessa procura constantemente insatisfeita que nos faz gente à procura da perfeição, de algo mais, de além e aquém, que se traduz numa fé e religiosidade ao nosso estilo. Fé que mesmo para os que se dizem não ter fé arde no peito, pois somos donos de convicções ardentes e flamejantes-até poderíamos dizer que somos um mundo de água ardente, na maneira como falamos, discutimos e defendemos nossos pontos de vista --à Lusitana.

Voltando ao livro, que por nossas qualidades de ser teima em não ser nosso copo de vinho, em Portugal, vale mais o football ou as actividades de gratificação rápidas-talvez a internet venha a ter maior influência entre nós do que o livro em si. O espirito Português como as suas danças pede mais a rapidez do que a concentração que se exige numa leitura. O livro com muita facilidade põe-nos a dormir. Não é portanto surpresa nenhuma que seja o football e o jornal que nos prendem mais a atenção. Ver a bola correr, a batalha travar-se, o suor correr-isso é Portugal e isso são os Portugeses. Ler um jornal ficar a saber rápida e fácilmente o que se passa no mundo, a nossa queda.

Que há gente erudita em Portugal e que há gente que aprecia a arte e museus, e ler livros, de certo que há. Mas quem, em dias típicos de Lisboa, insuportávelmente quentes como conheci pela primeira vez em Julho de 1980, se interessa fechar num quarto a ler um livro, ou visitar um museu. Com mais dias soalheiros do que sombrios, toda a actividade intelectual decresce. É que para se ler um bom livro, precisa-se de uma boa sombra.
Gostaria de ver Goethe, Shakespeare viver em Portugal--não como turistas, mas como gente nossa-em nenhum tempo dominar-lhes ia o nosso Sol e nossa luz e dependuradas ficar-lhes-iam as canetas e fácilmente tornar-se iam Fernandos Pessoas, como ele divagando em realidades de aquém e de além amando ouvir o fado em horas de sombra e por vielas sombrias.
Nessa maneira de ver as coisas, diria, que Portugal todo, até é um livro, em que tudo nele são as páginas de uma maneira de ser e de viver à base da sua luz a jorros. Foi mesmo essa lembrança da luz e vibração da nossa terra que me fez naquela manhã de Outubro deslocar-me de onde moro na Alemanha para sentir um pouco do nosso calor e nossa luz, e por instantes ser mais uma pequena letra nessa página aberta em Frankfurt na Feira do Livro. Foi aí que descobri que mais apetecível do que a leitura de um livro seria um dia passado ao Sol de Portugal, com o mar estendido aos nossos olhos em frente a alguma janela de um bairro, falando com alguma pessoa amiga, apreciando escutar a tagarelice da nossa gente e de olhos semi-cerrados beber a luz límpida e terna do céu.
É assim pensando, que pelas minhas estradas do pensamento escrevo esta nota, enquanto lá fora paira uma neblinha e um cinzento eternamente cinzento onde nem existe Sol.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha


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