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Silvério Gabriel de Melo


Precisa-se de um Salman Rushdie para o Natal


Hoje na Alemanha, o dia 6 de Dezembro é o dia de Nikolaus. Ontem à noite todas as crianças trataram de colocar seu sapatinho pronto para uma surpresa. Os bons meninos recebem algum doce, laranja, ou qualquer outra guloseima. Os meninos maus recebem um pedaço de carvão ou uma verdasca para os corrigir. Na norma não são brinquedos as ofertas, mas antes algo saboroso para se comer, chocolate, rebuçados, bolachas, bolos, frutas, etc. Knecht Rupprecht que é o ajudante de Nikolaus, por sua vez, trata de fazer a escolha entre os bons e os maus.

Nicolaus, o verdadeiro, era um nobre que viveu na zona onde hoje se encontra a Turquia. Como resultado de uma peste, morreram-lhe os pais. Ficou esse jovem cheio de dinheiro e com o desinteresse para viver como senhor rico. Logo tratou de partilhar com os pobres do que tinha. Mais tarde tornou-se bispo e é com a idumentária de bispo que se o conhece aqui no Norte. Tornou-se o padroeiro dos comerciantes, dos marinheiros, das crianças, das donzelas e até dos ladrões. Essa tradição espalhou-se para o Norte da Europa para os países Escândinávios onde o gelo, e a neve, e o mundo do Polo Norte se lhe misturou.
A tradição, como tudo o mais, um dia emigrou para o Novo Mundo , e é na América que engorda e passa a vestir o fato encarnado. Com a prosperidade comercial dos últimos anos, ele está-se a tornar cada vez mais o Epirito- do que se pode -Ter, se houver dinheiro que o compre.

Na Holanda por esta altura, em cada aldeia e cidade passam os Nicolauses sobre um cavalo branco acompanhado de um Schwarze Peter, que até veio da península Ibérica e por aí haverem mouros chamam-no de Pedro Pretinho. Esse é quem está incubido de entregar as ofertas ou castigar os meninos maus, como o vassalo que é. O Nicolaus em si um espécie de Deus, a Santidade da magia do ter, num país conhecido pelo mercantilismo.

Assim, começa a estação do Natal, esta estação de sonho e de fantasia que transforma o mundo por uns curtos dias, numa maravilha. Por todo o lado são as luzes, as decorações de Natal, as ofertas, a música, a alegria e a inocência de sonhar. Num mundo morto sem Sol, onde impera o frio, a neve e o gelo, existe a fé de que tudo voltará a viver, que o Sol voltará a ser quem era--rei do céu e da criação. Entretanto encantamo-nos com a fantasia, o brilho do Inverno e é nos países do Norte onde esse brilho é mais forte e portanto dominante, que mais importante se torna o Natal. Quem pensaria passar o Natal sem o culto da neve, do brilho do mundo dos Niebelungen, entre o fogo e o gelo?

Pena é que esta estação , devido à ganância e interesses comerciais, começa cada vez mais cedo, ainda mesmo antes do Halloween Americano-- já em Outubro. Pena é também que as crianças cada vez mais julguem que esta é a festa das listas, quando podem manipular o espirito de Amor a ceder às suas exigências e caprichos--cada vez menos capacitadas que esta é a estação de dar, mais do que receber.

Não, não é a falta delas. Nós os adultos que como leões à caça, arrastamos para o ninho tudo que se possa na nossas qualidades de reis da criação. Julgamos que enchendo os nossos filhos das coisas que querem e gostam é amá-los. Infelizmente, raramente ensinamos os nossos filhos não a fazer listas do que querem, mas sim a fazer listas do que deviam querer dar aos outros. Assim, ensinamo-lhes a serem materialistas, interesseiros e só felizes pela caça que conseguirem ter à sua roda.

Quem ensina as crianças que é nos corações de crianças, inocentes e boas que esse Santo vive-- que é pela porta do coração que ele vem `a noite quando se dorme? Quem lhes ensina a não impedirem essa entrada do coração como os muros de Berlin tão cedo pela ganância de brinquedos e guloseimas, pelo egoísmo e interesse. Quem lhes ensina a não se bloquearem e fecharem fora desse reino de sonho pela sua atitude de "Seja feita a Nossa Vontade." Assim contentamo-nos a praticar uma tradição que anda a transformar a humanidade em homens carrapachos-- parasitas felizes apenas no sugar, no ter, no receber, atraídos pelo que brilha e é caro e domina os sentidos. Onde estão os Cristãos os visionários de Cristo se eles são os primeiros a glorificar o ouro e a ensinar que no brilho das coisas é que se encontra a felicidade.

Precisa-se para a nossa cultura Euro-Americana, alguém como Salman Rushdie para pôr fim ao sonho cada vez mais deturpado e falso, mais mentira e negócio. Precisa-se acordar a humanidade para o verdadeiro sentido desta Festa e expulsar à maneira de Cristo os vendilhões e comerciantes desta época do Ano. Precisa-se possuir a coragem de parar de celebrar a mentira e a ganância e com suavidade e amor, ensinar-se aos nossos filhos denovo o "Pai Nosso." É que a morte dos inocentes como na era do nascimento de Cristo já não se descobre pelo choro e a agonia, mas pelo regozijo, o engano, a falsidade, a satisfação do sentidos e no amor por condição do que se recebe e dá e o mero "quero e preciso!" Quem está disposto a parar esta comédia do Natal e acusar o dinheiro, a vontade de ter?
Precisa-se de um Salman Rushdie para se reencontrar o Natal, esmagar o ovo do dragão com todo o seu brilho e ternura, todo o seu encanto feérico, mas vil.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha


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