No mundo da arte, a exposição de Gunther von Hagan em Mannheim este ano, tem dado muito que falar. Trata-se da arte do corpo humano na sua forma mais anatómica-cadáveres.
Os corpos constam de defuntos que antes de morrerem doaram assim os seus restos mortais ao artista que os recicla pelo processo de plasticização-isso é mergulham-nos num produto que inclui a acetona,
a qual remove toda a água existente nas células, assim impedindo o processo de decomposição das mesmas e dando uma qualidade plástica a toda a engrenagem do organismo humano que pelo processo fica exposto-já que a pele se desintegra no mesmo processo.
Assim, em vez de serem enterrados ou cremados, os corpos transformam-se em peças de arte. Alguns corpos são abertos ao meio para assim melhor facilitar os orgãos interiores ficarem expostos; outros são quartejados e depõe tais corpos como estátuas anatómicas nas diferentes posições como se ainda em vida-só com as entranhas à amostra. Deparamos assim com aquela dimensão da máquina humana na sua
forma mais nua e crua. Precisamos mesmo lembrarmo-nos que tais figuras, se tratam de pessoas humanas reais e não figurinos distutos de vida que ali se erguem perante nós.
Macabro, não é tanto o efeito. É que pelo processo, o corpo em toda a sua constituição de músculos, tendões, ligamentos, fibras, capilares, etc. adquire uma qualidade plástica, que rouba nesse contexto a impressão de talho humano que era de esperar. É como se estivessemos em alguma aula de anatomia humana e tudo simplesmente moderno, simplesmente mundano, simplesmente Europeu--pela estética
empregada pelo artista, em outras palavras, tudo, avant-gardiste, mesmo fino.
Como em qualquer exposição de arte, deparamos com outras maneiras de interpretar o real. Como filigrana, a fibra de nervos e capilares, e os orgãos com suas formas globulares, cabalísticas, depõem-nos perante um universo de filamentos, cabos, uma cibernética su generis, um todo
interior mecânico , ao mesmo tempo fascinantemente, complexo e simples.
Nesta idade de materialismo e do poder da ciencia e da técnica, garante-se à máquina humana desta forma um pouco de uma eternidade-nega-se-lhe ao pó, quando pertence ao pó. Nega-se-lhe a
própria alma dando-lhe a qualidade do plástico.
Alguém mesmo perguntou ao artista o que ele pensava sobre a alma dessas pessoas que assim se exponham como peças de arte. O artista então respondeu que, como artista só compreendia o que podia tocar, ver, sentir com os sentidos. Como a alma não se pode ver, nem sentir ou perceber pelos sentidos, pouco se interessava como tais realidades que considerava como consideração descabida, com o qual não se interessava.
....
Há no Museu de Ciências de Boston, uma secção dedicada aos fenómenos ópticos e à psicologia a eles relacionados. Numa secção desse museu, existem umas máscaras que de uma forma misteriosa, quase mágica, ao com elas depararmos , temos a impressão de estarmos a olhar para rostos vivos, cujos olhos nos seguem de uma forma estranha. Numa análise mais cuidada dessas mesmas máscaras, descobrimos, que afinal os tais rostos não passam de máscaras invertidas cujos os olhos são apenas orifícios que levam de um espaço vazio a um outro espaço vazio.
Ora o fenómeno explica-se pelo facto de o célebro criar tal impressão, negando o vazio e criando impressões mais em linha com certas configurações próprias segundo certas percepções que pela
auto-sugestão e outras certas condições se desencadeiam no processo de percepção. Por isso ao depararmos com as máscaras, a primeira impressão é que se tratam de rostos e de olhos de alguém vivo, e não de meras máscaras. Só com uma melhor análise nos consciencializamos do erro.
Nos nossos dias, pena, existem mais pessoas humanas a quererem viver com o vazio, o real mais real segundo os sentidos, regeitando impressões mais profundas do sentir, do pensar do perceber a
realidade, do próprio cerne da mente. Havendo treinado os sentidos a regeitar o insólito, o fantástico, o que consideram um erro de percepção, constroiem para si um mundo onde não permitem o sonho, a
alma, o fantástico, milagres, a própria fé, o etéreo por convicção. O seu mundo torna-se, assim, um mundo, onde impera o vazio, o causal, o palpável, o mecânico-- o esqueleto e carne das coisas.
Regeitam o espirito como irreal e inconsequente, almas inconsequentemente quartejadas, materializadas, plastificadas em vida.
Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha
Após a leitura deste artigo, pode enviar a sua opinião/comentário e debater com o autor as opiniões aqui expressas Participe no debate!Envie a sua opinião. Será imediatamente publicada.