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Silvério Gabriel de Melo


Punchinelo


Pela auto-estrada fora, num sistema que permite o extremo de velocidade, os carros passam como bólides. Nesse mesmo sistema, torna-se aborrecido quando algum carro mais vagaroso impede a livre circulação do tráfico. Torna-se de um momento para o outro vítima da má disposição de todos os outros carros que o ultrapassam--- nessas auto-estradas mandam os carros possantes, velozes, sem problema algum. Nenhuma sucata se atreve a percorrer as pistas sem fim dessas super-estradas.

Entre os homens, da mesma forma, quem é possante, rápido em reacções, esperto, saudável, manda respeito e consegue a consideração de todos à roda. O fraco, o doente, o pobre, o velho ou a criança perante tal realidade passam a último plano, tornam-se uma carga para a sociedade----e quanto mais materialista e mesquinha essa sociedade, mais indesejável a situação de tais indivíduos, mais vulneráveis ficam eles à intolerância e falta de compreensão dos restantes.

Na Internet esta semana enviaram-me um conto em Inglês cujo o autor desconheço, mas que bem descreve essa realidade. É o conto do povo Wemmick que passo a reproduzir com algumas adaptações.

O povo Wemmick era um povo de bonecos de pequena estatura feitos de madeira. O criador de tal povo em miniatura era um carpinteiro de nome "Elias" cuja oficina era mesmo ali perto, sobre uma colina pegada à aldeia desse povo de madeira.

Todos os Wemmicks eram diferentes entre si. Não havia nenhum igual. Alguns eram torcicolosos, outros lisos como paus; uns eram narigudos, ainda outros tinham olhos enormes, enquanto outros ao contrário tinham olhos pequenos. Uns eram cabeçudos, outros tinham cabeças achatadas. Uns eram altos, outros baixos; uns eram gordos outros magrizelas, lisos ou grosseiros. Uns eram escuros, outros eram claros. Alguns traziam roupas caras, outros vestiam-se com trapos, mas todos eles, sem excepção eram a obra do mestre "Elias" o carpinteiro que vivia ali mesmo a dois pés da aldeia.

Todos os dias e o dia inteiro, os Wemmicks faziam só uma coisa. Eles distribuiam entre si autocolantes. Cada Wemmick possuia uma caixa de de rótulos autocolantes em forma de estrelas douradas e uma outra caixa de rótulos autocolantes em forma de discos cinzentos sem brilho algum.

Pelas ruas fora, para cima e para baixo, por todo o lado se viam Wemmicks distribuindo entre si tais rótulos numa dedicação impressionante. Viam-se Wemmicks pregando estrelas ou discos de cinzento basso entre si, numa azáfama sem parar. Com as estrelas douradas iam sorrisos e cumprimentos. Com os discos cinzentos faziam-se carrancas e resmungava-se de mau humor.

Os bonecos de madeira lisa e envernizados, conseguiam sempre estrelas brilhantes e trocavam sorrisos entre si, mas os bonecos de madeira mais grosseira, menos luzidios, de tinta esfarrapada, a esses, os Wemmicks, com um prazer e um desprezo estranho, rotulavam com os discos cinzentos sem brilho e desviavam-se da mesma maneira deixando atrás qualquer comentário azedo e menos cortês.

Os bonecos com talentos especiais ou atributos invejáveis, também conseguiam as estrelas douradas. Um bom pau, mesmo que escuro, também conseguia a sua estrela luzidia. Alguns só porque podiam levantar pesos mais alto de que ninguém, outros porque davam cambalhotas, ou eram os primeiros em alguma corrida, ou os que faziam um espalhafato e faziam mais barulho do que ninguém, o mais palhaço ou mais mandão, aquele que usava de palavras "caras" ou de palavrão, o que melhor cantava ou que encantava, esses todos conseguiam a sua estrela de ouro e os elogios de todos. Alguns Wemmicks, de populares tinham rótulos no corpo todo - mesmo nas zonas mais indiscretas e quanto mais estrelas tinham mais ganhavam - "Aqui vai mais uma meu querido/ ou minha querida!" ouviam-se-lhes dizer.

Havia, porém, outros Wemmicks que fizessem o que fizessem não conseguiam brilhar. Tudo o que faziam era mal feito, sem valor algum. A esses invariávelmente se dava o círculo cinzento sem brilho - para dizer a verdade, a eles, até se pregava um dos tais rótulos sem lustre mesmo só por mal disposição, por graça e por hábito. Se alguém azedo ou mal disposto avistava alguém com muitos dos tais rótulos sem brilho, com prazer lhe afixava mais um da mesma qualidade entre um resmungar ou descompôr. Muitos que envergavam tais rótulos chegavam mesmo a entregarem entre si iguais discos e a reservarem as suas estrelas douradas para aqueles que andavam já carregadas delas.

Ora havia um Wemmickinho que se chamava "Punchinelo". Ele experimentava saltar e fazer vantagens como todos os outros, mas para sua desgraça todas as vezes que fazia uma façanha dava tudo errado, acabava por cair por terra ou de cair no ridiculo. Nessas ocasiões, os outros aproximavam-se para com toda a proa lhe pregarem um rótulo cinzento. Às vezes quando ele caía riscava o verniz, ou lascava alguma parte do corpo, cada vez mais tornando-se difícil o cair nas graças dos restantes Wemmicks. Ele tentava explicar a razão porque tinha caído, mas ao fazê-lo interpretavam o que ele dizia de uma forma errada e ele passava por estar a dizer asneira, ao ponto mesmo de até já gagejar sem saber o que dizer. Nessas ocasiões, todos os Wemmicks se lhe dirigiam com gosto para colar sobre ele mais e mais rótulos cinzentos e sem brilho - a sua desgraça e pesadêlo.

Depois de algum tempo, Punchinelo tinham tantos círculos cinzentos que ele nem se atrevia sair à rua. Ele temia fazer qualquer coisa estúpida, tal como esquecer-se do chapéu, pôr os pés nas poças, tropeçar e cair e tornar-se objecto eterno de todo o desprêzo e jacota dos outros Wemmicks, que com prazer o cobririam cada vez mais com os tais rótulos cinzentos da côr de lixo. É que no fim, por já ter tantos rótulos cinzentos, muita gente até, por nenhuma outra razão lhe colocavam mais um rótulo, resmungando "Tu mereces todos os rótulos cor de lixo que há e mais este por seres quem és!"

Os bonecos, no fim, todos concordavam que Punchinelo não era um Wemmick como devia ser, que era uma vergonha para toda a raça de Wemmicks. Não merecia estar entre eles.

Depois de algum tempo, até Punchinelo, ele próprio passou a acreditar nesse facto e cada vez mais fugir à vista e presença dos outros. "Eu não sou um Wemmick como deve ser." Dizia ele para si próprio. Os poucos Wemmicks com quem ele se dava no fim tinham tantos rótulos cinzentos cor do lixo como ele. Juntos fugiam dos Wemmicks que passavam cheios de estrelas. Juntos ora davam-se rótulos cinzentos ou ---se conseguiam alguma estrelas entregue em acto de dó, escondiam-nas como se as houvessem roubado e lhes fossem custar milhares de outros discos cinzentos pelo atrevimento.

Mas, um dia, Punchinelo encontrou uma Wemmick como nenhum outro Wemmick. Ela não tinha nenhum disco cinzento, assim como também não tinha nenhuma estrela dourada. Ela era uma boneca de madeira como qualquer outro Wemmick. Chamava-se "Lucia". Não era que os outros não lhe tentassem dar auto-colantes. Chegavam-se para ela com estrelas ou discos cinzentos, mas nenhum autocolante conseguia ficar colado nela. Muita gente admirava-a por ela não estar coberta de autocolante algum e chegavam-se para ela para na sua apreciação deixar-lhe com uma estrela, mas em nenhum tempo as estrelas deslizavam do seu corpo e escorregavam para o chão. Outros, despeitados, chegavam-se para ela e com fúria colavam-lhe um disco cinzento, para na mesma forma notarem que esses se descolavam e ficavam pelo caminho.

"É assim mesmo que eu gostava de ser!" Punchinelo pensou, "Ser livre de rótulos, não ter mais nenhum rótulo, estrela ou disco sobre mim—que bom seria!"

Assim ele perguntou à menina sem rótulos, qual era o segrêdo dela.

"Fácil", respondeu ela, "todos os dias eu vou ter com Elias".
!Que Elias?" perguntou Punchinelo.
"Elias é o carpinteiro que mora naquele morro lá em cima. Todos os dias vou ter com ele e sento-me na sua oficina."
"Porque é que fazes isso?" perguntou ele.
"Porque não vais tu mesmo até lá acima e descobres por ti próprio?" retorquiu a moçoila e foi daí afastou-se.
"Ele não me vai querer ver". Gritou ele, mas Lucia já o não o ouviu.

Punchinelo foi para casa e sentou-se à janela a pensar, enquanto lá fora, o povo Wemmick não parava na sua tarefa de distribuir rótulos uns pelos outros, estrelas para os que luziam, discos cinzentos para os velhos, fracos e feios.

"Isto não está certo, eu vou falar com o tal Elias, vou!"
Saiu de casa e tomou a direcção da colina onde ficava a oficina de Elias, o carpinteiro e criador do povo Wemmick.

Quando chegou lá acima, com seus olhinhos de boneco de madeira passou uma vista a tudo o que via. Elias era um gigante. Só o martelo que segurava na mão era do tamanho do seu braço. A cadeira sobre a qual o carpinteiro se sentava era tão alta como qualquer Wemmick. Punchinelo decidiu fugir dali, mas ao notar que ele ali estava, Elias vociferou, "Punchinelo!?"
Punchinelo ficou aterrorizado, mas Elias voltou, "Punchinelo, que bom é o ver-te, vem! Vem para aqui! Deixa-me ver-te melhor!"

Punchinelo virou-se devagar para olhar o velho de barbas que assim o chamava. "Senhor, tu sabes o meu nome, como é isso?"
"Pois sei, fui eu que te fiz, Punchinelo."
Elias baixou-se, agarrou Punchinelo e depô-lo sobre o mesão onde trabalhava.
"uhm, parece que muita gente te vem dando más notas!"
"Oh, Elias, desculpa, eu não queria que isso acontecesse, eu fiz todo o possível que isso não acontecesse, mas não sei porquê". "Não precisas de me explicar nada, Punchinelo," respondeu o carpinteiro, "Eu não ligo ao que os Wemmick julgam ou deixam de julgar".
"Estás certo, que não te importas?", perguntou Punchinelo.
"Pois estou certo", respondeu-lhe o velho, "o que os Wemmick julgam uns dos outros, não tem valor nenhum. Só eu é que posso avaliar cada um de vocês, e para mim tu, Punchinelo és tão importante como o Wemmick mais coberto de estrelas que houver".
"Como é que eu posso ser especial, senhor, se eu não sei andar sem tropeçar, falar, sem gagejar, trepar, sem cair, correr, sem me pôr de lastros. O meu verniz está todo estalado. Eu não sou belo como os demais, se eu faço e digo só asneiras? Como é que tu me podes considerar de especial. Tu também queres-te rir de mim, senhor?"

Elias cobriu o pequeno boneco, Punchinelo, com as suas grandes e calosas mãos e respondeu, "Punchinelo, tu é especial, porque eu te fiz; pertences a mim. Para mim tu, como és, és tão especial como o Wemmick mais envernizado e liso, mais coberto de estrelas de todos os Wemmicks. Porque eu te fiz e tu me pertences, e porque eu sou perfeito em tudo o que faço, é que tu és especial", compreendes?

Punchinelo estava aturdido. Nunca na sua vida de boneco de madeira tinha Punchinelo sentido-se tão bem. Como era possível! o criador, o carpinteiro falar com ele assim; ele que merecia todos os discos da cor do lixo do mundo, ele Punchinelo coberto de anátema, de milhares de rótulos cinzentos e feios.

"Os discos cinzentos são tantos, senhor!"
"Eu sei, mas a gente já trata disso. Tens que acreditar, que o que eu penso sobre ti, é mais importante do que quer que os outros pensam. Além disso, os rótulos só conseguem colar-se, se tu acreditares no que os outros julgam de ti--- Precisas, Punchinelo de escutar mais o que eu digo e penso e deixares de ligar ao que os outros Wemmicks pensam sobre ti. Confia em mim, Punchinelo!"
Punchinelo olhou o ancião de uma forma atónita-, "Como assim?"
"Sim, Punchinelo, os rótulos só se colam, se tu acreditares no que os outros julgam e pensam de ti. Por isso, vem-me ver todos os dias por algum tempo, até acreditares no que te tenho para dizer e como para mim tu vales muito Punchinelo, tanto como o Wemmick de mais valôr que haja."
A seguir, Elias colocou o boneco de madeira de novo no solo e deixou-o ir, antes voltando a dizer, "Punchinelo, não te esqueças do que eu te digo, tu é especial porque eu te fiz e ---eu sou perfeito e exacto no que faço, em tudo o que faço. Acredita-me!"

Punchinelo voltou ainda muitas vezes à oficina do carpinteiro Elias e todas as vezes que ali ia, desfazia-se de alguns dos discos que trazia, até que no fim ele próprio, livre do efeito do que julgavam os outros Wemmicks, se viu como Lucia devestido tanto de estrelas como de discos cinzentos da cor do lixo - e era ele próprio, finalmente aquele que queria ser, livre e certo do que queria ser segundo o plano do ancião que o havia criado um dia naquela oficina lá no alto da colina junto à aldeia de Wemmicks, ele Punchinelo.

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha


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