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Silvério Gabriel de Melo


Amor de Pai


Havia num país algures na Europa um nobre, também coleccionador de obras de arte. Era viúvo e tinha um filho único com quem era muito chegado. Juntos dedicavam-se à procura de obras de arte que adicionavam à sua já grande valiosa colecção. Tratavam-se de famosas peças de arte de artistas famosos como Picasso, Van Gogh, Monet e muitos outros que adornavam as paredes do palácio onde habitavam.

Além de amar muito o seu filho, esse nobre sentia um orgulho por esse filho, que, como ele, possuia não só um sentido de apreciação e gosto pela arte, mas tinha um geito e uma habilidade enorme para o negócio de coleccionador de obras de arte como ninguém outro. Assim, o pai revia-se no filho, reconhecendo nele as sua própria qualidade como colecionador de obras primas. Só até o filho lhe concedia um estado de espírito superior ao que sentia pela arte e o negócio. Ele era o seu tudo, a sua razão de viver. Com o filho ao lado ele era o pai e o colecionador mais feliz do mundo. O amor que tinha pelo filho era tão grande que pelo filho fazia tudo e dava tudo que esse queria.

Um dia, porém, no fim do Verão, o país onde viviam envolveu-se numa guerra sangrenta. O filho do coleccionador, como todos os outros jovens, orgulhosamente enlistou-se também nas Forças Armadas para assim defender a sua Pátria.

No decorrer de umas curtas semanas, infelizmente, num dia triste de Outono, o pai recebeu de súbito um telegrama-- o filho tinha desaparecido em acção. Sem saber porquê, o pai sentiu dentro em si o coração arrochar. Tratou logo de contactar meio mundo para que lhe informassem sobre a sorte do seu filho. Ele não podia pensar de uma vida, de um mundo sem o filho.

Nos dias a seguir nem comia, nem dormia, até que lhe vieram informar o que ele já tinha presentido, que o filho tinha morrido, que já não existia mais. Tinha sido abatido por uma bala quando tentava ajudar um colega dele ferido em batalha---o filho que tanto amava não iria mais voltar! Com ele toda a sua própria vida, toda a sua alegria, toda a sua vontade de viver.

Isto era perto da época do Natal e o velho, como se muitos séculos tivessem decorrido no espaço de dias, sentiu um pêso, uma dôr tão profunda que nenhum Natal do mundo poderia nunca desfazer. Para ele tinha morrido o Natal-- tinha morrido o Sol, as estrelas, toda a felicidade que este mundo pudesse dar. Todo o frio e abandono da natureza o envolveu. O Sol tinha morrido com o filho e ele deixava de querer viver.

Na manhã de Natal enquanto ele chorava a ausência do filho ainda, alguém bateu à porta. Como tinha dado folga aos criados, foi ele próprio até à porta. Aí deparou com um jovem soldado que sorrindo o cumprimentou e se introduziu como um amigo do filho. Pálido, o velho não conseguiu parar as lágrimas que lhe saltaram aos olhos e no seu aperto de mão, segurou-se com força a esse jovem como se a uma tábua de salvação, como que se através desse jovem fosse conseguir de volta o seu filho, a memória dele, algum pedaço da sua vida, dos seus últimos momentos.

O jovem trazia consigo uma embalagem. Falando, sentaram-se e aí o velho passou a escutar um relato em como tudo se tinha passado. Ficou a saber que este jovem tinha sido o amigo que o filho havia salvo a vida.

Artista, esse jovem havia prometido a si mesmo trazer uma oferta ao pai do seu melhor amigo. Entregando a embalagem ao último, pediu que esse a abrisse. O velho assim fêz--- rodeado de obras valiosas dos artistas mais famosos do mundo, ao desembrulhar a embalagem o velho deparou com uma simples e modesta pintura que logo soluçando abraçou como se alguém muito querido. Como se tivesse encontrado um tesouro perdido, ali ficou muito tempo a embalar-se com o quadro como esse se tratasse do próprio filho. Ao vê-lo assim, o jovem soldado respeitosamente levantou-se e saiu. Ele próprio havia pintado esse quadro---o retrato do amigo como soldado na guerra.

Depois de algum tempo abraçado ao quadro, o velho com muito cuidado como se esse quadro se tratasse da obra mais valiosa da sua colecção, retirou um quadro muito valioso de um artista muito famoso de sobre a parede da lareira do seu salão. Lá depôs o quadro com a pintura do filho de quem não conseguia retirar o olhar. Todos os outros quadros deixaram de ter interesse para ele. Só aquele quadro simples se tornou o foco da sua colecção. Todos os outros quadros valiosos juntos, não tinham o valor desse pequeno quadro de moldura barata, pois ali estava o seu filho muito amado, o seu querido filho.

...
O velho voltou a encontrar-se com o amigo do filho mais tarde. Através dele ficou a saber de muito detalhe sobre a maneira em que o filho se comportou na guerra, como dignificou o seu país e o seu pai pela sua coragem e valôr. Aos poucos aprendeu a aceitar a realidade e a sentir orgulho dos feitos do filho e da sua nobreza de carácter. Passava horas sentado em frente à lareira a mirar a pintura como alguém numa noite escura a mirar o brilho de alguma estrela longíqua. Era como se um Sol se tivesse afastado, mas a presença ao longe e a memória dele era luz que ainda o segurava à vida.

Era aí que um criado velho da casa o vinha servir, ou no pretexto de ali trabalhar lhe fazer companhia e o animar.
Os outros criados abanavam a cabeça com dó e iam vendo aos poucos o nobre senhor se desfinhar para logo mais adoecer - morreu no fim da Primavera.

Logo a seguir, o mundo da arte, os museus e outros coleccionadores foram informados que em honra do filho do velho nobre, havia esse permitido que todas as suas peças de arte deveriam ser leiloadas depois da sua morte. A notícia deu lugar nos jornais mais lidos da época. De todo o lado do mundo chegaram artistas, administradores de museus e galerias, gente endinheirada prontos a aproveitar esta oportunidade única de enriquecerem as suas próprias colecções.

O testamento determinava que o leilão teria lugar no dia de Natal, o dia em que o velho havia recebido a oferta do quadro mais valioso da sua vida. Os salões reservados a tal leilão cedo se encheram de gente interessada numa boa compra e de muitos curiosos, entre eles alguns dos criados e conhecidos do velho nobre.

O leilão começou com um quadro que não estava em nenhuma lista de obra de arte de nenhum museu. Era um quadro modesto pintado por algum aprendiz que retratava o filho do velho nobre vestido de soldado.

O leiloeiro levantou a voz e deu inicio ao leilão.
"Senhoras e senhores, damos inicio ao leilão com este quadro de um soldado pintado por um amigo dele. Quem é que dá mil dinares por este quadro?"

Toda a gente se entreolhou. Ora porque não se ia de vez aos quadros mais valiosos e se deixasse tal insiginificância da mão. Alguns abanaram as cabeças em desaprovação. Outros respiraram fundo como se maçados. Um atreveu-se mesmo levantar a voz e gritar, "Nós estamos aqui para coisas mais valiosas. Esse quadro não vale nada. Nós não estamos interessados no filho desse senhor. Passemos ao que importa. Vamos lá!"
Outras vozes juntaram-se-lhe em protesto, mas o leiloeiro bateu com o martelo sobre a mesa e pediu silêncio.
"Senhores, o testamento indica que não haverá leilão sem que este quadro seja vendido primeiro. Quem é que compra a pintura do filho do nobre senhor, quem é, quem é que dá mil dinares por este quadro?"
A audiência moveu-se incomodada. Entre o tumulto que se seguiu, levantou-se uma voz e disse, "Eu só posso dar $500 dinares, mas ficaria com gosto com esse quadro. Conheço bem esse menino."

Tratava-se do fiel criado que ao notar a falta de vontade dos presentes em comprar o tal quadro se prontificou a comprá-lo ele mesmo. Ele conhecia bem o filho do nobre e estimaria ficar assim com uma peça que ele bem sabia o quanto significava para o seu velho senhor.
O leiloeiro consultou com os advogados ali presentes e depois de uns momentos de tensão e de desespêro da restante audiência, anunciou que o quadro estava vendido.

Todos os demais concertaram-se nas cadeiras prontos a iniciar o que haviam vindo para ali fazer.

Para sua surprêsa, logo de seguida ouviram o leiloeiro anunciar:

--Senhoras e senhores, acabou o leilão!

Novo tumulto apoderou-se da sala. Como podia o leilão acabar, se nunca tinha começado? Alguns dos presentes tornaram-se mesmo violentos e de uma forma bruta insistiram que alguém lhe explicasse o que estava a acontecer.

"Senhores, - explicou o leiloeiro, "segundo o testamento, quem quer que comprasse o quadro do filho deste senhor, também ficaria com toda a sua colecção e fortuna. Pedimos desculpa, mas não há mais nada para leiloar."

Nos jornais do mundo todo no outro dia, como título principal lia-se, "Quem Quer Que Tivesse Aceite o Filho Teria Conseguido Toda a Riqueza do Pai."

Adaptação de uma história em Inglês de autor incógnito

Silvério Gabriel de Melo - Vogelbach, Alemanha


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