Uma vida... uma história com cinquenta anos de Suíça
D. Berta de Araújo nasceu no dia 11 de Outubro de 1924 em Lisboa.
Contou-nos um pouco da sua vida , com as suas alegrias e tristezas e aquilo que ainda ambiciona. Setenta e dois anos de vida com cinquenta e um destes passados em terras helvéticas, mais precisamente na cidade de Lucerna.
Conheceu o marido em 1944 na festa do primeiro de Agosto, na embaixada Suíça em Lisboa, na altura na Av. António Augusto de Aguiar, bastaram uns olhares para ficar bem impressionada com o Senhor Feer, um mecânico a trabalhar em Portugal para a firma Sulzer suíça.
Naquela tarde de agosto, ficou o impacto dos olhares, e talvez uns suspiros de quem sente algo e que não sabe explicar muito bem o que é. Frequentava na altura a praia da Costa Caparica, onde lá ia todos os domingos com as amigas, que também era a praia que todos os estrangeiros residentes frequentavam. Lá estava o suíço muito bem parecido, que com o qual tinha trocado já uns olhares comprometedores.
Não foi difícil encetar amizade, mais árduo foi comunicar, entre o palpitar e olhares, conheceram o nome um do outro escrevendo-o com o dedo na areia, riam-se da forma como ficaram a conhecer o nome de cada um, mas naquela tarde não se cansaram de o repetir, tal era a força de quem sente algo em comum.
Casou em Portugal com o Senhor Feer no dia 22 de Junho de 1945, Lisboa, na Av. Fontes Pereira de Melo à uma e meia da tarde, foi o consolidar de uma relação. Estávamos no último ano da Segunda Guerra Mundial, vivia-se em incertezas e com tempos muito duros, a firma Sulzer compra um barco na América, e o Senhor Feer vai buscá-lo, e traz este para Lisboa pois era o único porto que poderia atracar em segurança, todos os outros portos europeus estavam minados e em guerra . O barco é consertado e o marido da Dona Berta leva-o até Génova, onde foi vendido, e esta vem para a Suíça, e aterra em Genebra no dia 21 de Janeiro de 1947. Deixou a sua profissão de modista de chapéus, e a família para começar uma outra nova vida que nos primeiros tempos correu tudo bem. Nasceram cinco filhos, um dos quais infelizmente já falecido, e os anos passaram-se com conflitos de ser, sentir e estar.
Refugiou-se nos filhos, em vê-los crescer com o amor de mãe. Foi-lhe pedido pelo marido para não praticar o português em casa com os filhos, pois este dizia, que iria atrasar os pequenos na escola com o suíço alemão.
Sem nunca se poder afirmar, chegou o momento da ruptura, e com este veio o divórcio em 1977. Passou momentos muito difíceis, pois o marido tirou-lhe a pensão e usou todas as formas de retaliação, mas, com o seu amor próprio foi resolvendo os seus próprios problemas, pois os filhos já estavam todos formados e orientados.
Cinquenta e um anos de Suíça, que sente que passaram demasiado rápido. Tem uma força pela vida que é de invejar, com uma lucidez e precisão de todos os relatos que nos contou , e onde a sua grande felicidade são os filhos, que os tem sempre no pensamento. Tem um desejo, que era dos seus filhos terem o passaporte português, por uma pátria que nunca renunciou e que ama. Já contactou os serviços consulares em Zurique, e ainda não conseguiu realizar o seu sonho por dificuldades burocráticas. À parte deste tem outro, que é de regressar à sua amada Lisboa para passar o resto da sua vida, nós esperamos que os sonhos de D. Berta se realizem.
O sonho faz parte da vida...
Artigo anteriormente publicado no jornal Luso-Helvético, o jornal da Comunidade Portuguesa na Suiça
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