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Reflexões sobre " O Acto Médico"

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Falou-se muito, nas últimas semanas, nos órgãos de comunicação social e não só, no conceito de acto médico. Tudo surgiu quando o Presidente da República vetou o diploma sobre o assunto, elaborado pelo governo anterior e que era da simpatia da Ordem dos Médicos. Nele vedava-se por completo o exercício da medicina a quem não estivesse inscrito na respectiva associação corporativa, a dita Ordem.
Eu apoio sem reservas a tomada de posição presidencial e vou tentar explicar as razões da minha concordância. Todos os profissionais da saúde, sabem que a esmagadora maioria das doenças dos seus utentes é do foro psicossomático, precisando o cidadão enfermo ao seu cuidado de uma abordagem terapêutica integral que eles, a maior parte das vezes, por motivos vários, não dão. Por outro lado é cada vez mais comum nos meios de comunicação social ver-se e ouvir-se técnicos responsáveis falar nas disfunções que a sociedade actual provoca ao homem moderno em todos os planos da sua actividade. Fala-se, assim, a torto e a direito na disfunção educacional ( na família e na escola ), na disfunção da relação de um casal ( e aqui da sexual em grandes manchetes...), na disfunção no trabalho ( com a competição desenfreada pelos lugares e cargos ) na disfunção do meio universitário (com a falta gritante de saída profissional para os alunos ) e até na disfunção na terceira idade ( com a incapacidade de todos nós absorvermos os velhos no seu capital de experiência acumulada). Fala-se de isto tudo e diz-se que provoca "stress" e doença e até fadiga crónica e cancro... Com esta visão que eu acho correcta está a dar-se uma visão global e holística ao problema da saúde e da doença. Aliás, desde há milhares de anos, esta relação entre a mente, as emoções e o corpo físico foi estabelecida e reconhecida como causa de várias disfunções e doenças. A própria Organização Mundial de Saúde a adoptou na sua definição de saúde e de doença o que marcou um grande e reconhecido avanço. Pois agora quer restringir-se o tratamento destas disfunções a uma só classe profissional que nem preparação suficiente tem, nos dias de hoje, para o fazer.
Os médicos actuais estão mais ao serviço das técnicas e das electrónicas do que das pessoas como tal. Bom médico hoje é aquele que trabalha nos cuidados intensivos e sabe fazer todas as manobras de reanimação e intervenção cirúrgica, de extrema complexidade, para salvar vidas. Os outros, os clínicos gerais e demais clínicos, são vistos com desconfiança, ainda acrescida exponencialmente perante aqueles que cuidam e servem sem o dito diploma e a necessária inscrição na Ordem dos Médicos !... Mas meus senhores , uns não tiram o lugar aos outros ! A medicina orgânica que trata ou extirpa tal ou tal órgão doente, que reanima um corpo já em agonia está no fim da linha assistencial de uma sociedade que se preze. Antes, muito antes, estão as pessoas aparentemente sãs ( porque não têm nenhum tumor para extrair ou não estão em paragem cardíaca ou respiratória ) mas que andam efectivamente doentes como células de um corpo social disfuncional e distorcido. É para essas, que invadem diariamente os centros de saúde e os consultórios dos psiquiatras, que precisamos de criar novos profissionais e principalmente novos meios de tratamento, que sejam mais baratos, da mesma eficácia dos convencionais e com menos efeitos secundários e acima de tudo que tornem as pessoas mais felizes e consequentemente mais saudáveis. Chamar a estes profissionais médicos, terapeutas, curandeiros ou qualquer outro nome é totalmente irrelevante. É necessário encaixar com perfeição as duas vertentes citadas ou seja os novos serviços a criar têm que ser articulados entre si e as novas ( velhas ...) medicinas ou o que se lhes queira chamar, serem complementares da já estabelecida. Ora se os médicos deixassem os seus interesses corporativos mesquinhos e a sua arrogância, algumas vezes pseudo-científica, e olhassem melhor para o seu semelhante e lhe auscultassem a alma, veriam o erro em que estão a cair. Deixemos a liberdade de cada um vir ao de cima e após ser informado com seriedade tomar a decisão que bem entender para o tratamento da sua enfermidade.
Muitos exemplos de sucesso da complementariedade de saberes e de praticas terapeuticas, alguns que eu pessoalmente já vivi, poderia citar. Ora isto é um avanço e não um retrocesso ! O que é preciso é regulamentá-lo com bom senso e rigor. Nunca proibi-lo por decreto, o que numa sociedade aberta e democrática é totalmente absurdo. Esta proibição que se queria impor por lei ia, com certeza, fomentar, ainda mais, a irresponsabilidade individual e por outro lado alargar irremediavelmente a charlatanice mais execrável.
Porque hoje a maior doença é a solidão e quer queiramos ou não os médicos inscritos obrigatoriamente na sua Ordem não são de forma alguma as únicas pessoas capazes de a tratar !...

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.
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