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Estamos em plena comemoração dos 500 anos do achamento do Brasil. Anunciam-se várias iniciativas nos dois países e o próprio Presidente da República Portuguesa prepara-se para em Abril visitar oficialmente o país irmão. Entretanto começaram já a aparecer testemunhos e depoimentos sobre o assunto, nas televisões e nos jornais, de altas individualidades dos meios políticos e culturais. Um desses depoimentos veio de Mário Soares que há dias disse que nenhum português se completa como tal sem ter previamente conhecido o Brasil ( as palavras não são textuais ).
Lembrei-me a propósito do que dizia o saudoso Professor Agostinho da Silva em muitos dos seus textos ( ele que conhecia tão bem o Brasil...). Para ele o quinto império, tão anunciado e desejado por tantos visionários portugueses, tinha-se já materializado no Brasil. Esse império da fraternidade e do amor, da igualdade entre raças e credos, de harmonia com a natureza era esse país achado por nós há 500 anos.
Nunca visitei o Brasil mas sou luso-brasileiro e tenho uma forte herança cultural daquele povo. Essa herança transmitida no sotaque, nos usos e costumes, nas histórias de fantasia e nos relatos verídicos, foi-me mais tarde acrescentada com os programas de televisão e os livros dos seus poetas e escritores mais conhecidos. Penso que muitos dos meus contemporâneos, mesmo não tendo ascendência brasileira ( e quem é que em Portugal não teve na família algum emigrante no Brasil?! ), fizeram um percurso semelhante, lendo pelo menos os mesmos livros e vendo as mesmas telenovelas. Sei que a recíproca não é nem de longe verdadeira. Que o brasileiro conhece muito mal os portugueses e tem de nós e do nosso país uma ideia vaga e deturpada e mesmo negativa. Mesmo a Europa está progressivamente a sair do seu imaginário e dos seus sonhos e a ser substituída pelos Estados Unidos da América do Norte. Então - pergunto - que sentido tem esta comemoração ? E esta visita de estado ? Como português sinto que somos, como dizia o Padre António Vieira, " um povo que está em todo o mundo como em casa e em casa como em parte nenhuma que não seja a humanidade inteira". Mas os brasileiros, não sentirão o mesmo ? Esta capacidade de partir, de se misturar sem preconceitos de nenhuma espécie, de assimilar as culturas dos outros muito mais do que a de impor a nossa, de conseguir as sínteses necessárias em cada momento histórico, não será agora também património do povo irmão do Brasil ? Se sim, então porque não esquecer os excessos do passado, a exploração dos escravos ( levados à força da África portuguesa...), a espoliação das riquezas naturais e muitos outros episódios menos dignificantes ? Não seria melhor contextualizarmos em definitivo esses factos e tomarmos consciência que para a época foram bem menos bárbaros que os cometidos, por exemplo, pelos nossos vizinhos espanhóis ? Se assim sentirem ambos os povos - então vale a pena a visita. Caso contrário é mais uma enorme comitiva de gente ilustre que vai em passeio ao Brasil à custa de todos nós. Espero, sinceramente, que a visita do nosso presidente sirva para abrir estes horizontes de compreensão e nunca para estreitá-los apenas em relações comerciais e empresariais que não nos traz, a avaliar pelo passado, benefícios nenhuns.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.
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