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Chovem Imagens nos espelhos...

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Vivemos na sociedade do espectáculo... A realidade só existe em função da imagem que nos é transmitida pelos mass-media. Tudo o resto deixa de existir, pura e simplesmente... Resta-nos muito pouco espaço para a reflexão, para a descoberta individual do mundo que nos rodeia, para a construção de uma opinião própria e segura. Esta constatação é hoje por demais evidente para todos nós mas muitos pensadores já o tinham previsto há muitos anos. Esta espécie de epidemia foi por exemplo apontada por Italo Calvino num ensaio brilhante que intitulou " Seis propostas para o próximo milénio". Nele podemos ler : " E acrescentarei que não é só a linguagem que me parece atingida por esta peste. Também as imagens, por exemplo. Vivemos debaixo de uma chuva ininterrupta de imagens; os mais poderosos media não fazem senão transformar o mundo em imagens e multiplicá-lo através de uma fantasmagoria de jogos de espelhos ; imagens que em grande parte estão privadas da necessidade interna que deveria caracterizar toda a imagem, como forma e como significado, como força de se impor à atenção, como riqueza de significados possíveis... Mas talvez a inconsistência não esteja só nas imagens ou só na linguagem; esteja no mundo. "

Vem isto a propósito por exemplo da cobertura televisiva exaustiva do congresso do P.S.D. este fim de semana. Como se mais nada estivesse a acontecer no país e no mundo, tivemos todos de nos inscrever à força neste partido e como militantes ouvir as intervenções e, quase por absurdo, participar também nos debates e votações. E sem querer todos nós fomos absorvidos por aquele ambiente. Se de futebol se tratasse seria a mesma obsessão televisiva e todos seríamos adeptos sem o querer... Dir-me-ão que são os efeitos da globalização da informação e que se trata do segundo maior partido português ou do desporto rei em Portugal. Para mim são indicadores da profunda desertificação cultural da nossa sociedade, da lenta petrificação do mundo - essa cavalgada de opacificação de tudo que inspire leveza e elevação - que nos transforma em consumidores passivos e abúlicos. Um país pára defronte das televisões horas a fio por causa de lutas de poder dentro de um partido politico. O espectáculo continuará noutros cenários amanhã e nos dias seguintes. As vidas de cada um ficarão mais pobres porque cada um fica sempre mais só e indefeso nas malhas apertadas deste poder imenso das imagens. Porque cada um, na ilusão de uma participação mediatizada, acaba por sentir, depois, que nada do que viu e ouvi corresponde à satisfação das suas necessidades e aspirações mais profundas como cidadão e como ser humano.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.
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