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Droga, Mentiras e Hipocrisia

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O governo português prepara-se para autorizar o consumo de drogas dentro das cadeias e abrir para tal efeito salas especiais com todo o conforto e máxima higiene. Pensa até fornecer gratuitamente, para além das seringas, doses de droga para que os reclusos não necessitem de a comprar através dos mais variados expedientes.
Esta medida vai ser proposta no âmbito da União Europeia para que possa, no futuro, ser tomada por todos os países.
Ao ler esta notícia, não posso deixar de pensar nos inúmeros excluídos da nossa sociedade, que não têm a mesma atenção e solicitude dos governos. Para não falar já dos povos do terceiro mundo que fazem apelos lancinantes de ajuda para suprir as necessidades mais básicas que rara ou tardiamente são atendidos.
Não sou contrário por princípio a esta medida - bem entendido - nem digo que há outras prioridades a atender no momento. Quando se diz isto acaba-se, muitas vezes, por não fazer coisa nenhuma e não é esse o meu desejo. O que sinto mais uma vez é a hipocrisia das atitudes e esta começa a tornar-se de facto abjecta.
O fenómeno da droga, com esta relevância, não tem mais de 20 a 30 anos de existência. Começou por ser uma evasão das elites e dos jovens, descontentes com a sociedade emergente, nos E.U.A e na Europa, e rapidamente alastrou a todas as camadas da população, juntando quantas vezes à pobreza material, a degradação moral e a doença crónica, em milhares de jovens por este mundo fora.
Ora, no outro mundo do sul - África e América Latina principalmente - o problema ainda é hoje bem diferente. Não há mas é "salas especiais" para administrar os alimentos necessários à saúde das populações famintas !...
Chegamos assim a um tempo em que a fronteira dos ricos e dos pobres é um muro cada vez mais alto de mentira e hipocrisia. De um lado morre-se de fome e de malária e do outro do tédio do consumo supérfluo e dos vícios que ele acarreta.
Portugal tem neste contexto uma situação caricata pois embora se sinta pertencente aos segundos tem ainda assente no seu território as paredes desse muro e, consequentemente, os dois mundos a coexistir dentro das suas fronteiras.
E é precisamente, porque ainda somos assim, que me faz tanta confusão estes gestos magnânimos e "progressistas" anunciados.
Como disse recentemente, com a frontalidade que sempre a caracterizou, essa grande figura pública portuguesa - Maria de Lurdes Pintassilgo : " Há uma incapacidade generalizada de pensar o mundo e a sua governação."

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.
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