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A "bancarrota" do nosso descontentamento....

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Passa-se em Portugal um fenómeno novo e de cujas consequências ninguém do governo quer falar abertamente : noventa por cento do que os portugueses ganham ao fim do mês é para pagar dívidas.
Esta euforia consumista entrou numa tal espiral que se alimenta a si própria automaticamente, fazendo com que do indivíduo se passe a toda a sociedade e desta ao próprio estado.
Hoje deve tanto o cidadão comum como o banco a quem pediu os seus empréstimos ; este, por sua vez, depende de outro fora do país e desta forma é o país que está totalmente endividado. Deixamos assim de ser o sujeito das nossas acções para ser mais um objecto do mercado, sem vontade própria e sem saída possível, igual afinal ao nosso banco e ao nosso próprio país. O governo responde a tudo isto dizendo que, se as taxas de crescimento da economia se mantiverem, podemos aguentar perfeitamente este estado de coisas. Só não diz, para não alarmar, é o que acontecerá se o crescimento económico não for o desejado... Eu não deixo de reflectir na perda de soberania - individual e colectiva - a que este estado das coisas leva e sinto-me cúmplice também desta "bancarrota" moral a que chegamos.
Quem nos governa então ? - perguntará cada um de nós. A quem devemos afinal o dinheiro que pedimos emprestado ? Vivemos em função de quê ? De que valores ? Que legado vamos deixar aos vindouros ? Que preocupação tivemos com o nosso crescimento espiritual ? Porque vivemos tão neuróticos e ansiosos ? Talvez questionando-nos assim, possamos encontrar um sentido para a sociedade que desejamos todos ( consciente ou inconscientemente ) construir e para sermos o sujeito da nossa própria vida. Porque uma coisa é certa : quando os homens chegam ao ponto de viverem em função das dívidas materiais que contraíram fazendo desses bens as suas únicas pertenças para a "grande viagem" é porque se torna necessário começar tudo de novo. É que só quando na mala de cada um existir apenas três ou quatro coisas importantes a saber - a compaixão, a compreensão, a fraternidade e o amor - é que poderemos partir para outros níveis de existência...e a sociedade espelhará naturalmente essa evolução. Até aí, atolados de compras e de teres e haveres, comprados a crédito, teremos mesmo que cair na "bancarrota" da nossa pequenez para renascer de novo, individual e colectivamente, e evoluirmos então noutros sentidos que nos façam mais felizes.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.
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