Liberalizar a nossa impotência ? |
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Há grande polémica em Portugal sobre a despenalização do consumo de drogas leves.O próprio partido do governo parece dividido a tal respeito.Os defensores de tal medida vêem nela um primeiro passo para o declínio do trafico e consequentemente da delinquência juvenil. A ideia é simples. Se um jovem não precisar de comprar para consumir, então não precisará de roubar para a adquirir e o traficante verá os seus negócios em declínio. Os defensores da continuação da proibição defendem que a liberalização poderá levar a um cada vez maior número de consumidores entre os jovens e a um convite para novas experiências com drogas pesadas ( heroína, cocaína, etc ). Eu não tenho ainda uma opinião formada sobre este tão importante assunto. E basicamente por duas ordens de razões. Sabe-se hoje por inquéritos idóneos efectuados recentemente à juventude portuguesa, que dez por cento dos estudantes dos primeiros anos do ensino secundário já teve pelo menos uma experiência com drogas leves. Esta percentagem cresce exponencialmente dos doze anos em diante até atingir cifras de noventa por cento no ensino superior. Este fenómeno por si mesmo é já motivo de grande preocupação; por outro lado criar uma espécie de paraíso das drogas em Portugal levará a uma procura do nosso país por toda a juventude europeia com consequências imprevisíveis. Não sei se esta procura não seria aproveitada pelos traficantes para incutir outros vícios piores nessa camada populacional. Mas se o consumo da droga me aflige os motivos para a sua demanda preocupam-me muito mais. A falta de horizontes da nossa juventude ( portuguesa e europeia em geral ), a perda de ideais nobres e a insegurança familiar que sentem, faz destes futuros homens e mulheres seres profundamente desencantados com a politica e com as transformações sociais que urge fazer. Mergulhados num sistema de ensino que lhes facilita a vida até à entrada na faculdade deparam mais tarde, já no fim dos cursos, com a perspectiva do desemprego ou do sub-emprego. Habituados a padrões de consumo elevados sentem-se frustrados quando se vêem a sós com todo o tipo de responsabilidades a enfrentar. Por isso mantêm-se na família até muito tarde e dificilmente dão o passo do casamento ou da paternidade. Conheço-lhes a generosidade e sei que a culpa é nossa que não soubemos dar-lhes algumas referências fundamentais para sobreviverem. Talvez essa nossa má consciência continue bem viva e esteja na base da futura liberalização das drogas leves... Talvez seja, mais uma vez, um sinal da nossa impotência... José Dias Egipto escreve nesta coluna todas as semanas. Acrescentar como Favorito (304) | Refira este artigo no seu site | Visualizaes: 3992
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