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O sagrado hoje

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Muito se tem falado do sagrado nos últimos tempos a propósito do fenómeno do futebol. Que essa paixão que nos faz capazes dos maiores sacrifícios só para ver a nossa selecção jogar, que nos une fraternalmente em frente de um televisor, esquecendo os ódios da véspera e as agruras da vida, que tudo isso enfim é comparável à devoção aos símbolos sagrados tradicionais e nos liga a algo que nos transcende sem darmos por isso. Os nossos intelectuais ateus chegam ao ponto, inimaginável há uns anos atrás, de declararem que admitem que a sua religião seja, mesmo que por breves momentos, o futebol !...
Perante este tipo de fenómenos que seriam liminarmente chamados de alienantes pelos teóricos marxistas dos anos sessenta, os seus descendentes ideológicos de hoje acham-lhe graça e são incapazes de os mimosear com aqueles adjectivos. Os jovens arredados na sua formação de qualquer religião e pouco despertos para se pensarem a si próprios, limitam-se, na sua maioria, a serem apenas os maiores protagonistas desses novos cultos modernos. Chegamos assim a um tempo de uma aparente tolerância generalizada, até com o fenómeno do sagrado, mas que no fundo não é mais do que a falta de novas referências culturais e ideológicas. Neste vazio de ideias em que vivemos, no plano legislativo vai-se tolerando todos os experimentalismos sociais porque há forças de pressão capazes de o impor ( veja-se a questão da adopção de crianças pelos homossexuais...) e no plano intelectual vai-se tolerando as velhas práticas ritualistas desde que não sejam enquadradas pelas igrejas instituídas. Como se o sagrado só estivesse permitido no futebol, nos concertos rock, nos cultos satânicos dos jovens "metaleiros" e irremediavelmente vedado às igrejas tradicionais e a outros grupos de meditação sob pena de se tornarem práticas reaccionárias e caducas e de em última instância estarem ao serviço dos poderosos deste mundo capitalista. Que grande presunção e confusão! E afinal, como alguém disse, o essencial é sempre invisível para os olhos e o que é preciso é procurá-lo sempre mas com o coração...

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.
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