O "Big" Cão |
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Contrariamente às cabeças pensantes da nossa terra eu sou dos que vejo o programa televisivo "O Grande Irmão" (Big Brother). Não fui educado a espreitar pelas fechaduras das portas nem a usar binóculos para invadir a privacidade dos vizinhos mas a vida encarregou-se de me fazer "voyeur" de outras formas tanto ou mais perversas do que estas. Com o tempo fui-me habituando a apreciar programas deste género e hoje sinceramente já não me escandalizam. Dir-me-ão : - Como é isso possível se este programa é inédito em Portugal ? Responderei que outros estão "no ar" há muito mais tempo e são o entretimento preferido de milhões de portugueses. Como assim ? - replicarão. Passo então a explicar. Imaginem o dia-a-dia de um cidadão normal. De manhã, os meus amigos, vê-lo-ão a ouvir o noticiário na rádio em frente ao espelho quando faz a barba. E o que ouve ? A trama mais intima da "Casa" de S. Bento com os ministros nomeados para sair e os desejosos para entrar ; as nomeações para futuro presidente do P.S.D. com as confissões dos candidatos em directo ; os namoros subtis para os acordos na Assembleia da Republica com muitas carícias à mistura entre membros de diferentes partidos sob o olhar constante das câmaras e dos microfones... Já no trabalho o cidadão ouvirá com certeza as confissões dos colegas sobre a necessidade da saída do chefe daquela "Casa" e do que tal ou tal colega anda a tramar para o vir a substituir ; sentirá os assédios de alguma funcionária ou funcionário para lhe fazer tal trabalho prometendo pagar-lhe na "moeda" do seu agrado ; tentará ouvir a conversa intima que no intervalo para café "aqueles dois armados em parvos" andam a ter nos últimos tempos... Bem, de regresso a "Casa", irá ao banco e ao super-mercado e já no autocarro ouvirá, sem querer(?), a conversa entre duas senhoras falando da sua vida intima e da vida intima de outras e da necessidade da amiga comum deixar a sua "Casa" e o marido e arranjar outra maneira de viver ; olhará na estação as câmaras de vídeo apontadas para si e chegará à conclusão que espiou e foi espiado durante a maior parte do seu dia... Mas à noite na reunião do condomínio, o nosso amigo cidadão, verá de novo câmaras a filmá-lo e imaginará o porteiro a deliciar-se com as discussões imbecis que gente licenciada tem nestes encontros e até o gozo que lhe dará o poder encarar, o tempo que quiser, sem ter que virar a cara respeitosamente, a intimidade mais carnal de alguma proprietária que lhe alimenta as fantasias eróticas há uns tempos... No meio da barafunda destas reuniões, em sua "Casa", chega-lhe à mente aquela circular oficial que leu , à tarde no serviço, que falava na necessidade de racionalizar os recursos humanos no departamento e em que se pedia que nomeasse um ou dois colegas para serem "convidados" a sair da grande "Casa" . Pensa agora que terá, se calhar, de escolher um dos mais maduros e reflexivos e deixar ficar os mais iguais e certinhos nas tarefas. Tal como no programa da televisão serão sempre os mais velhos e mais instruídos que terão que dar lugar aos que falam sempre do mesmo e que não passam do rés-do-chão da cultura geral. Mas pensa que não vale a pena preocupar-se pois, de certeza, nesse momento, já toda a gente sabe quem vai ou não ser despedido. Já alguém espreitou a alguma porta ou roubou algum papel... Antes de se deitar liga a televisão e vê um espectáculo sórdido com uns senhores do futebol em agressões verbais e jogos de mentira e poder. Noutro canal cenas de violência de arrepiar os cabelos ; no seguinte sexo explicito ; noutro ainda um concurso para atrasados mentais em que se premeia com milhares de contos o analfabetismo cultural pela mão de respeitáveis jornalistas agora travestidos de criados de servir... Já deitado sente agora os braços, os olhos e os ouvidos desse grande "Irmão" e as suas mais ínfimas ramificações. Um mundo cão onde vale tudo para sobreviver e que vai excluindo aqueles que querem evoluir intelectual e espiritualmente. O Grande Cão, o "Big Brother" global, a todos segue os passos e a todos manipula e fará tudo para perpetuar o seu poder ... Adormece e sonha com uma casa portuguesa onde doze jovens vivem sabendo e tendo consciência que os seus actos estão a ser registados em todos os momentos pelo "Grande Irmão" televisivo. A realidade e a ficção invertem-se no seu pensamento. Sente que apesar de tudo é bem melhor a realidade "fabricada" no concurso. E que este por ser em Portugal é bem diferente dos restantes de que ouviu falar. É que aqueles jovens pelas conversas que têm e pela maneira de agir só podiam, de facto, ser portugueses - são bastante fúteis, são às vezes grosseiros na linguagem mas são ainda muito ingénuos e puros de intenções... Sente-se mais aliviado - o Grande Cão, apesar de tudo, ainda não lhes pôs os dentes afinal ! José Dias Egipto escreve nesta coluna todas as semanas. Acrescentar como Favorito (346) | Refira este artigo no seu site | Visualizaes: 4140
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