Sempre que venho de Paris para o Porto de avião, imagino, durante e depois da viagem, o que pode, algum dia, ligar estas duas cidades que me são tão queridas. O que separa, afinal, a sociedade francesa da portuguesa, para além dos mil e tal quilómetros de terra plana ou montanhosa... Não é já o regime politico em tudo semelhante ao nosso ou não fosse a França um dos modelos em que se inspirou a nossa jovem democracia... Aliás neste momento, tal como cá de vez em quando, são os escândalos políticos que dominam os noticiários franceses. Neste aspecto nada há a acrescentar... Não são também os grandes armazéns e lojas porque desde há dez anos a esta parte estamos em igualdade na oferta de bens de consumo. Não são muitos outros aspectos exteriores à vida de cada um e à das cidades no seu conjunto. Até um rio banha as duas cidades, dando-lhes uma beleza impar e sobre ele várias pontes ligam as duas margens... Não, o que diferencia Paris do Porto ou mesmo de Lisboa é a atmosfera que se respira, a paisagem humana no seu todo e no mais particular dos seus pormenores. Nós portugueses precisamos de vez em quando de sair das nossas quatro paredes para nos confrontarmos com os outros povos que, como o francês, são mais civilizados do que nós. Então veremos que estamos ainda de facto na adolescência dos valores cívicos e da urbanidade sadia. Que somos ainda muito rudes nos modos e ásperos nos contactos sociais. Que nos falta o porte escorreito e belo no vestir e a gentileza espontânea nas atitudes. E não nos venham dizer que isso se deve apenas à riqueza material. Os nossos concidadãos, emigrantes em França, não se distinguem nas ruas, no Metro ou nas lojas de Paris e são já, indubitavelmente, cidadãos de outra categoria. Claro que o dinheiro bem aplicado também ajuda quanto mais não seja para não nos sentirmos humilhados ao chegarmos ao aeroporto do Porto e sentirmos o espanto, face à pobreza das instalações, dos estrangeiros que nos visitam. Mas o que nos elevará, no futuro, ao nível da atmosfera de Paris será a educação dos nossos jovens para os valores da cidadania e a sua capacidade natural de mudar comportamentos e atitudes. Até lá o eixo Paris-Porto-Lisboa será apenas uma ficção ou uma miragem a realizar um dia...
José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.
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