As Políticas para o Dia Seguinte |
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Vivemos em Portugal um período de acelerada uniformização legislativa em relação aos restantes países da União Europeia, nomeadamente no que respeita às políticas de âmbito social e da juventude. Ainda esta semana se discutiu na Assembleia da Republica, pela mão de um partido da esquerda parlamentar, a aprovação da chamada pílula do dia seguinte. Esta iniciativa vem na sequência e na lógica de outras já aprovadas ou discutidas num passado recente, como a da educação sexual nas escolas, da despenalização do consumo das drogas leves e do aborto, da possibilidade da adopção de crianças por casais homossexuais, etc. Não tenho em principio nada contra a despenalização de práticas ou modos de vida que cidadãos, conscientes e bem formados, principalmente quando em situações limite, tenham como sendo do seu foro mais íntimo e particular. Foi-nos dado o livre arbítrio para em cada momento optarmos pelo que em consciência reflectida acharmos melhor para nós, sem prejudicar terceiros, assumindo socialmente a responsabilidade pelos nossos actos. Há porém experiências sociais noutros países, nossos parceiros, que devemos ter em conta e que nos devem fazer pensar se será esse ou não o melhor caminho para avançarmos em termos civilizacionais antes de cegamente as copiarmos para Portugal. Ainda na semana passada o jornal Público revelava num artigo, as medidas que o governo Inglês tenciona implementar para travar os números assustadores de abortos e gravidezes entre as adolescentes, apesar de todas estas leis, que agora se discutem em Portugal, já estarem há muito em vigor naquele país. Medidas impensáveis para um conservador dos anos 80 e agora advogadas por um governo de esquerda no início do século XXI ! Este facto mereceria uma reflexão profunda da sociedade britânica e também em todas aquelas que como a nossa pretende seguir-lhe o exemplo. O que falhou afinal ? Que efeito perverso têm as medidas que pretendem acabar com flagelos sociais e acabam, afinal, por os perpetuar? Será que o experimentalismo social a que se tem assistido por esta Europa fora tem dado só frutos positivos ? Se sim, como explicar então estes tremendos insucessos ? Para muitos não há outro remédio senão o de continuar a ensaiar medidas e correr depois atrás das consequências como se nada mais houvesse para fazer do que legalizar as novas atitudes marginais para as trazer para o centro da sociedade. São o que eu chamaria "as políticas para o dia seguinte". À força de tanto o fazer criam-se novos marginais, que terão de novo de ser recuperados pelo sistema para tudo voltar ao inicio, afinal... A felicidade das pessoas, o fim último da actividade política e das leias que lhe dão corpo, essa parece-me mais longe na sociedade ocidental de que tanto nos orgulhamos publicamente. Por outro lado os especialistas e os cidadãos mais despertos diagnosticam o "facilitismo" das novas gerações, o hedonismo dos seus comportamentos, a incultura nela reinante mas na hora de decidir vão dando mais lastro para que tudo lavre ainda mais. Ninguém, porém, chama a atenção para a falta de valores espirituais reinante em toda a sociedade. Na fuga às ligações mais pessoais ou colectivas com o transcendente ; da necessidade de trazer essas vivências para o quotidiano das pessoas. Da premência, afinal, de cada um se construir interiormente como ser humano feito de paixões, de racionalidade e de espiritualidade. Os próprios intelectuais têm medo desta palavra espiritualidade e preferem apelar aos valores sublimes da fruição cultural em sentido lato. Cada um que lhe chame o que quiser desde que falemos todos da mesma necessidade. Porque as transformações verdadeiras e duradouras só podem partir de dentro de cada um num diálogo franco e aberto com o seu Eu superior. Só depois, na junção dessas consciências, que serão muito mais do que meramente cívicas, se fará uma nova sociedade. Sociedade essa em que tudo é permitido e despenalizado, porque cada acto será fruto de pensamentos e palavras filtradas por muita reflexão e ligação a um todo que nos transcende. Sem necessidade de "slogans", hipócritas e de mera propaganda, como os de agora na Inglaterra, à virgindade das adolescentes, porque cada uma compreenderá que a virgindade não é coisa que se venda em cartazes, como produto da moda, mas será um estado de alma livre para acreditar sem rodeios nas capacidades do ser humano como topo da pirâmide da Criação.
José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.
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