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Morte hipocritamente assistida ?

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Foi aprovado no parlamento holandês a lei que permite a eutanásia. A Holanda será assim o primeiro país do mundo que permitirá a morte clinicamente assistida. Muito se tem falado no direito que um doente terminal tem para voluntariamente pôr fim à sua vida ou em pedir que alguém o faça a seu pedido. Os médicos que serão os profissionais responsáveis por praticar ou dar cobertura a tais actos estão divididos nas suas opiniões. Eu como médico tenho muitas dúvidas e vejo nesta lei agora aprovada um mau sintoma da sociedade que estamos a construir. Senão vejamos os argumentos que fundamentam esta lei:
1) os doentes terminais ou crónicos sofrem geralmente de terríveis dores e pedem por isso que se ponha fim ao seu sofrimento;
2) estes doentes na sua maioria estão extremamente deprimidos por falta de afecto dos seus familiares e amigos e sentem-se tremendamente sós ; por isso querem morrer.
Em relação ao primeiro ponto direi que os avanços da ciência puseram nos últimos anos ao dispor da classe médica potentes fármacos que debelam em grande parte este sofrimento. Mais : há já médicos e serviços vocacionados exclusivamente para esta área da medicina. Não me parece pois que seja um argumento suficiente para avançar com esta lei. Em relação ao segundo ponto o problema é para mim mais grave e perverso. Ou seja : como a sociedade que criamos todos, se tornou profundamente individualista e hedonista o remédio é dar cobertura a estas atitudes e tranquilizar as consciências de cada um subtraindo-lhe aquele familiar ou amigo que por motivos de doença não pode acompanhar o ritmo febril e esquizofrénico da vida actual em sociedade. A raiz dos problemas não é tocada e todos continuarão a sua marcha solitária até que um dia, caídos também no leito de um hospital, serão descartados como qualquer objecto de consumo e pura e simplesmente reciclados em lixo biológico. Neste caso a posição do bastonário da Ordem dos Médicos Portugueses, que fundamenta a sua discordância nestas razões, parece-me correctíssima e oportuna. Já nem falo aqui no dever médico de ser um agente da vida e nunca da morte. Seria demasiado redutor levar a discussão para esta área. Falo no dever de cada cidadão em ser solidário com o próximo, na necessidade de trazer para o dia-a-dia os gestos perdidos do amor fraternal, da necessidade vital para o futuro da humanidade de reinventar a partilha e não a competição, a conciliação e não o afrontamento constante, a renúncia do imediato fácil por troca com o prazer hedonista da fruição egoísta e narcísica dos outros. Sei bem o que sofrem os doentes terminais e incapacitados graves. Conheço bem muitas instituições onde definham sem luz. Sei também que a última coisa a que se agarram é a capacidade de sonhar com um futuro melhor. Mas sei também que sem afecto e sem calor humano já não se pode sonhar em paz ! Apesar de tudo prefiro apostar no amor no que na hipocrisia !

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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