O Natal do nosso desencanto |
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Hoje saí aturdido e angustiado de um dos maiores centros comercias do país. Milhares de pessoas acotovelavam-se nas compras de Natal. O local amplamente engalanado com enfeites e muita música parecia mais uma qualquer romaria ( ou discoteca... ) do que propriamente um conjunto de lojas. Aquela febre de consumo estava no máximo da temperatura e eu, que até lá ia para as compras necessárias da semana, acabei por voltar para trás a pensar com os meus botões. É que tinha cumprimentado muita gente que eu sei que tem dificuldades económicas que vive com o credo na boca durante os 365 dias do ano e que ali estava naquela euforia toda. A outras,mais desafogadas economicamente, conheço-lhes outros dramas mais profundos fruto de desencontros constantes na vida e de grande solidão afectiva. Uns e outros pareciam esquecidos de tudo e davam largas ao delírio da febre. Que orgia é esta em que transformaram o Natal ? Que sentido tem esta corrida desenfreada ? Quem quer ser milionário e feliz - parecia ouvir de altifalantes inexistentes ! Todos correriam com certeza lutando pela ilusão em migalhas que algum Pai Natal multimédia lhes oferecesse... Ai se tudo o que vi fosse sinónimo de felicidade que bom que seria !... Mas a felicidade não se compra nem se vende nem tem datas marcadas em calendários. É fruto do encantamento de estar vivo e da procura da beleza do mundo e da natureza no coração dos outros. É um processo interior e não um momento de euforia qualquer. É sinal de um advento renovado em cada ano, que existe no ritmo das estações e que marca o calendário litúrgico, em diferentes modos, de todas as religiões. Hoje já não há essas referências espirituais e quem marca a cadência da vida social são as grandes catedrais do consumo. O problema é que saído delas o cidadão, desde muito jovem, sente-se de novo vazio e em estado de abstinência do consumo. Despojado dos embrulhos sente a compulsão para os procurar de novo e entra em depressão. Tenho quase a certeza que a maioria dos que ali estavam estão profundamente deprimidos e sem chama que os aqueça. Sim, porque quanto mais altas forem estas torres do ter mais esmagado se sentirá o homem. Porque o encanto do Natal não está dentro delas ( por mais luzes e música que lá estejam ) mas noutras cumplicidades imanentes e transcendentes que o Homem de hoje desconhece. Até quando o desencanto no Natal?!
José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.
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