Vivemos tempos difíceis. Aparentemente ninguém o nota porque não vivemos em guerra onde geralmente falta a casa, a roupa e a comida. Não, não é desses bens que estou a falar embora grandes bolsas de pobreza alastrem por este mundo fora. Falo no atoleiro ético, moral e político onde nos estão a afundar gradualmente. Senão vejamos : em Portugal tem-se assistido nos últimos meses a fenómenos estranhos e preocupantes ao nível ético e político levando a uma enorme desconfiança em quem nos governa e pior do que isso a uma apatia cívica total ; nos E.U.A. o desfecho das eleições presidenciais foi o pior possível fazendo eleger por nomeação política ( e não jurídica como se fez crer...) o candidato menos votado nas urnas ; na Europa vimos há dias uma cimeira que durou dias a fio até se conseguir a hegemonia dos países ricos impondo a invasão e a opressão dos mais fracos sem necessidade de tanques e bombardeamentos como no passado; em África e na Ásia nem vale a pena falar... Mas não fiquemos só por aqui. Peguemos na imprensa, nas revistas culturais, nos filmes, nos artigos de opinião. Quem nos fala com palavras de esperança e com fé no futuro ? Quem nos ajuda a pensar e a reflectir ? Muito poucos e quase sempre pela superficialidade das questões menores da chicana política. Precisamos de quem nos fale na transformação das pessoas, na educação para a plena cidadania que deve começar no seio da família e da rua onde se mora, nos valores fundamentais da pessoa humana sem retórica e sem vaidade. Estamos todos carentes de testemunhos vivos, não das palavras transparência, honestidade e honradez que escondem sempre embustes monstruosos e perversos. Precisamos todos de sair deste beco aparentemente sem saída ; de criar novos modos e novas regras de viver em sociedade ; e, consequentemente, de novos cidadãos e novos políticos que emirjam dessas fontes rejuvenescidas de esperança. Caso contrário viveremos sempre na lamúria e na maledicência sem nunca nos pormos também à prova porque já aturdidos e sonâmbulos. Festejar o Natal hoje, no ano 2000, devia ser tudo isto, quer acreditemos ou não que houve e que há um Redentor. Porque basta acreditarmos, afinal, que nós todos podemos e devemos em conjunto redimir esta sociedade infernal em que nos deixámos cair.
José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.
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