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Para quando as "Big Presidenciais"?

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Estamos em plena recta final da campanha eleitoral para a eleição presidencial, porém, ninguém, aparentemente, se interessa ou simplesmente nem dá por isso. Assistimos à mais descolorida e vazia campanha de que há memória e chegou-se ao ponto de ter que se assistir a um debate com todos os candidatos mais por dever cívico do que por interesse no esclarecimento das propostas ou para formar uma opinião.
Se passássemos a televisão para preto e branco teríamos recuado vinte anos sem termos sequer de mudar as caras... Iremos com certeza ter a maior taxa de abstenção em eleições em Portugal após o 25 de Abril.
Diremos que o povo já não se interessa pela política e pelo seu destino pessoal e colectivo. Puro engano ! O povo interessou-se como nunca pelas eleições do Benfica ainda há poucos meses ; interessou-se espantosamente pelas votações da casa do Big Brother até há uma semana; interessa-se por tudo o que directamente lhes diz respeito ( co-incineração, obras publicas de relevância para a sua terra, falta de médicos etc,etc) e também por aquilo que, normalmente, os intelectuais acham que não interessa para nada... Mas não vale a pena malharmos em ferro frio e virarmos as costas ao povo pensando que nos trai em cada esquina. Não, devemos reflectir e tentar perceber o fenómeno e inventar novas formas de participação popular mesmo que, para isso, tenhamos que usar dos mesmos estratagemas. Como disse recentemente Eduardo Prado Coelho " ...o progresso em termos educacionais, científicos e culturais, não é nenhuma garantia de progresso em termos morais ; a democratização da escola não é nenhuma garantia em termos culturais". Se assim é e se " as ideias democráticas, quando enlouquecem e entram em roda livre, se radicalizam numa perda alargada da qualidade da democracia " então vamos tentar em diálogo modificar esta lógica de progresso e trazer as pessoas à participação. Que nunca será, obviamente, através dos velhos comícios e das velhas fórmulas mas dentro das novas realidades tecnológicas de comunicação. Façamos das campanhas eleitorais produtos de venda em tudo semelhantes aos que são ininterruptamente propagandeados pelas rádios e pelas televisões. Entremos no espectáculo para lentamente o subvertermos e trazermos de novo as pessoas ao interesse pela "coisa" pública. Usemos os mesmos ingredientes de sedução e até de perversidade desde que os saibamos desmontar progressivamente. Porque é preciso dizê-lo - muito do que se diz ser mau e perverso deve merecer a nossa concordância pelo menos transitoriamente. São fruto de um desnorte que esperamos passageiro na evolução dos povos e das culturas e não vale a pena lutar contra eles cegamente sob pena de os fortalecermos ainda mais. A alternativa não existe efectivamente no meio de toda esta tecnologia. Outra grande guerra ( solução passada para "resolver" muitos desmandos civilizacionais...) traria a extinção da espécie humana como é sabido.
O trabalho a fazer é transformar gradualmente a barbárie tecnológica na humanização tecnológica e isso demora tempo mas permite ter esperança no futuro. Quando a tecnologia estiver totalmente democratizada a nossa opinião estará sempre "on line" e a participação cívica ganhará novo empenho nesses novos moldes. Não é por acaso que nos grandes painéis publicitários dos candidatos a presidente aparecem pela primeira vez a morada electrónica. Hoje ainda é um leve aceno para aqueles que usufruem da Internet em suas casas ; amanhã será a realidade mais banal e o voto será, estou certo, electrónico. Em vez de clamarmos porque as pessoas não vão ás urnas e não saem de casa para participar temos que lhes levar as urnas a casa e dar-lhes os meios e os incentivos para que participem dentro das suas paredes.
Tempos virão em que as campanhas eleitorais serão concebidas com todos os ingredientes de um Big Brother, não há que ter medo, mas nós teremos a obrigação de estabelecer as regras de outra forma e sem poderes ocultos e aí, quem sabe, talvez possamos fazer com que os portugueses joguem, votando, na verdadeira novela da vida real que é, tão somente, a vida de cada um e o destino colectivo de um povo.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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