Esquerda, direita - volver... |
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O que são os valores de esquerda e de direita na sociedade actual ? Pergunta pertinente quando se começa um novo século que esperamos não traga tantas convulsões estéreis, a este propósito, como o anterior. No século passado ser de esquerda era ser apologista da igualdade de oportunidades para todos, da distribuição da riqueza através da intervenção do estado que, apropriando-se dos meios de produção, poderia distribuir os rendimentos por todos de igual forma. Era também o incentivo à democratização do ensino e da cultura num sonho de que todos tendo o acesso a elas se transformariam em homens novos com sentido de solidariedade e de luta pela paz. Ser de direita neste contexto era apostar na continuação dos privilégios de alguns, na preservação de hábitos culturais ancestrais, na ligação à religião e ao seu culto e mesmo ao fomento da guerra contra os inimigos vermelhos que queriam trazer o ateísmo a toda a Europa e a todo o mundo. Que significado tem hoje estes esteriótipos políticos? Será correcto apelidar uma pessoa de direita por ser católica ou protestante ou ter uma ligação qualquer ao transcendente ? E se ela denunciar a perda de valores morais da sociedade actual ou o desastre do capitalismo de estado das experiências de leste, estará automaticamente desse lado do espectro político? Infelizmente para muitos a lógica da política ainda se rege por estes parâmetros antigos. Eu acho contudo que neste século a fronteira vai ser radicalmente alterada. Essa linha passará muito mais pela busca de realização plena através de práticas concretas de vida do que pelos manuais da ciência política ou pelas velhas ou novas teorias. Ser de esquerda vai ser sinónimo de uma atitude de abertura perante o mundo mas também a posse do sentido crítico para denunciar as perversidades do caminho ; vai ser a prática da participação efectiva nos destinos da sociedade através das novas formas de comunicação, pondo-as ao serviço da felicidade das pessoas e menos da acumulação de bens materiais ; vai ser a promoção de uma nova espiritualidade que traga novos sentidos às palavras liberdade, fraternidade e igualdade ; vai ser isto tudo através de práticas e vivências de desapego efectivo aos bens de consumo relativizados pela re-ligação a outras esferas do conhecimento que nos virá do desbravar das leis cósmicas e da fruição constante da beleza do fenómeno inexplicável da criação que nos transcende em cada minuto de vida. Será esse sentido de disponibilidade para a cada momento sermos nós no nosso melhor e em todas as nossas facetas ou heterónimos que será a base da nova organização social e política do futuro. Será também o despertar para o aproveitamento para esses fins dos avanços tecnológicos e das novas conquistas da ciência colocando já não o Homem Racional no centro do mundo mas sim o Homem Cibernético que procura a felicidade no lazer deixado pela nova distribuição dos tempos de trabalho, encontrando, por fim, o tempo, que sempre lhe faltou, para questionar-se sobre o sentido da vida e o seu dever de ser criador. Será este Homem Espiritual ( ou Net-monge como alguns lhe chamam... ) que fará sentido no futuro. Quem contrariar, de algum modo, este caminho, que me parece inevitável, poderá então ser considerado retrógrado e de direita. Todas as outras abordagens clássicas deste problema parecem-me já deslocadas no tempo e um pouco redutoras e circulares como nas marchas militares em que à esquerda e à direita se sucede sempre o volver, para tudo de novo se reproduzir maquinalmente. José Dias Egipto escreve nesta coluna todas as semanas. Acrescentar como Favorito (490) | Refira este artigo no seu site | Visualiza珲es: 4366
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