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Ignorância máxima, segurança zero...

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Ainda só passaram dois meses neste novo ano e já morreram cerca de duzentas pessoas nas estradas de Portugal. Já nos habituámos tanto às notícias dos desastres rodoviários que perdemos muitas vezes a noção de que eles contribuem para a infelicidade de muitas famílias, para a perda de muitos dias de trabalho e dos proventos essenciais para muitos lares; para a perda, enfim, das vidas de muitos dos nossos concidadãos, a maioria dos quais na flor da idade.
Como se isto não bastasse são eles um dos parâmetros que nos colocam na lista negra dos países europeus porque são precisamente a primeira causa de morte no país. Muito se fala das novas doenças que grassam por este primeiro mundo fora, muito dinheiro sai dos cofres do estado para campanhas de sensibilização eminentemente dirigidas aos jovens, cujos comportamentos as disseminam, mas nada de concreto ainda se fez em relação à sinistralidade nas estradas.
Numa sociedade que exalta o corpo e o seu vigor, a que muitos já chamam doença e a intitulam de vigorexia, o automóvel potente passou a ser um veículo de prestígio social e de afirmação de poder e beleza. Os ricos geralmente satisfazem-se em ostentar a posse dos últimos modelos europeus e a passeá-los pelas praias e pelos hotéis de luxo. Como estes automóveis são apetrechados com os meios de segurança mais sofisticados, os acidentes geralmente não têm graves consequências e não são assim tão devastadores. Agora os pobres, que compram os veículos em segunda mão e em mau estado ( em qualquer outro país da Europa estariam na sucata ) ou que os adquirem a prestações com grande sacrifício, sentem necessidade de mostrar em velocidade e em "esperteza" na estrada o seu novo estatuto social. Se juntarmos a isto a falta de educação cívica a todos os níveis, o analfabetismo funcional da maioria e o estado, às vezes deplorável, de certas estradas secundárias, encontraremos as causas deste flagelo nacional. Enquanto o automóvel for um patamar ainda a alcançar na escalada social e não um simples meio de transporte que se quererá seguro e guiado em segurança, não sairemos deste estado de coisas. Porque por mais "tolerâncias zero" que se façam, a "segurança máxima" estará sempre dentro das pessoas, nos seus padrões de vida e nos seus valores de cidadania.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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