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O ruir das nossas estruturas...

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A tragédia de Domingo passado na ponte de Entre-os-Rios pôs em estado de choque o país e obrigou-nos a todos a uma reflexão profunda sobre o estado da nação.
Não há de facto palavras ou discursos que possam substituir a evidência escandalosa do nosso atraso estrutural. Muito mais que as estruturas físicas das nossas pontes ou estradas foram as estruturas da nossa máquina administrativa que ruíram de vez naquela fatídica noite. No fundo do rio Douro, encarcerados na amálgama de ferros ou levados pela corrente impiedosa, estão a nossa classe política em geral e cada um de nós em particular. Toda a película de modernidade que alguns tentaram colar ao nosso ancestral atraso, fazendo-nos querer que viajávamos no pelotão da frente dos países da Europa e que até já tínhamos chegado ao oásis no meio do deserto alheio, quebrou irremediavelmente aos olhos de todos os cidadãos.
Que esta tragédia sirva ao menos para nos vermos ao espelho e sentirmos o muito que temos que construir em termos de cidadania e de padrões civilizacionais. Somos pobres em recursos materiais, não temos matérias primas preciosas, mas isso não serve de desculpa para não sabermos gerir da melhor forma a nossa pequena casa. Uma administração pública sem prestígio, com carreiras em que o mérito foi substituído pelo clientelismo partidário, levou à maior das irresponsabilidades.
Uma democracia espartilhada por estruturas partidárias caducas tem afastado progressivamente os cidadãos, quase sempre os mais íntegros e competentes, da participação cívica e politica e segregou vastas zonas do país pondo-as ao abandono, só porque eram menos populosas ou de cariz partidário diverso do vigente no poder. A tarefa do futuro em Portugal trava-se no campo da competência de cada um e da responsabilidade pessoal pelos actos praticados, desde o mais simples cidadão até ao cume da pirâmide do estado. Agora que o crédito dos políticos jaz no leito pedregoso de um rio é hora de repensar tudo de novo. Não vale a pena apontar culpados porque neste sistema actual somos todos culpados por omissão. Daqui para a frente sejamos rigorosos no nosso trabalho para podermos exigir aos outros que o sejam. Mudemos as regras do jogo político e implantemos os valores do mérito e da honestidade em todos os patamares da governação. E sobretudo não nos iludamos com os privilégios de algumas zonas do país que, vivendo já com alguns padrões de modernidade, quiseram fazer crer aos incautos que o país real seguia o mesmo ritmo e caminho.
Não é por já haver algumas auto-estradas e se fazerem as "Expos" ou os "Euros" de futebol que as pontes que ligam as nossas estruturas sociais, económicas e políticas se manterão de pé. Elas ameaçam ruína há muito e ao desabarem, umas agora, outras mais dia menos dia, envergonham-nos a todos, ferem a nossa alma colectiva e hipotecam-nos o futuro.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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