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Crise de valores? Quais?

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Fala-se muito, actualmente, e ainda bem, na crise de valores reinante na sociedade ocidental. Fala-se muitas vezes com uma certa nostalgia de um passado que, para aqueles que se dizem de esquerda, traz consigo uma certa ambivalência interior e um notório embaraço público.
Felizmente que começa a despontar uma nova corrente de pensadores e filósofos que estão finalmente a pôr o dedo na ferida e a esclarecer as nossas mentes tantas vezes confusas com a evolução desenfreada da sociedade moderna. Pela primeira vez vejo a separação entre os valores morais e os valores espirituais e a descoberta desse vazio imenso da perda dos últimos, após a descristianização do mundo ocidental e da Europa em particular. Nesta sociedade laica que construímos, chegou-se já a um patamar de alargados consensos em relação aos direitos e deveres dos cidadãos e esse respeito pelos outros e pelas suas diferenças é já um dado adquirido em vastas áreas do mundo dito desenvolvido. Os mais entusiastas pensaram que com estas conquistas se chegaria a uma sociedade quase perfeita em termos de bem estar geral.
Como se pode ver agora enganaram-se redondamente. Quando relegou o sagrado para o caixote do lixo da história, o Homem ocidental, pensando que esses valores eram um empecilho para o desenvolvimento das sociedades, acabou paulatinamente por perder o pé ; procura agora esses valores superiores que lhe dêem resposta às suas mais profundas e legitimas perguntas. Construiu a democracia politica, aproximou-se, nalguns países mais a norte, da democracia económica, mas sente agora que ambas, mesmo em termos de participação e controlo do poder politico, o traíram profundamente e lhe fugiram por entre as mãos.
Agora o poder reside em outras instancias - económicas, tecnológicas e da comunicação em geral - sobre as quais não tem qualquer poder de controlo. Vive assim numa busca de uma espiritualidade laica como o disse recentemente entre nós Luc Ferry, senão mesmo já mergulhados na sua teia de indefinições e culpabilidades. Esses valores superiores de vida que, quer queiramos ou não, trazemos no nosso intimo faz-nos a todos órfãos e desamparados, perante o rumo imprevisível e incontrolável dos avanços tecnológicos e científicos. Inundados de imagens, perdemos a noção da realidade e acreditamos apenas no que nos querem vender sempre desconfiados, contudo, que seja gato por lebre.
Como se vai provando, dia após dia, este novo século ou nos irá trazer um renascimento dos valores espirituais ( talvez uma nova e universal "religião" ) ou então não chegará ao seu termo. Que estes novos pensadores sejam mais divulgados para que possamos sem vergonha tocar a ferida que nos consome e encontrar o remédio de que precisamos. Sem sentimentos "políticos" de culpa, porque já completamente desfocados das novas realidades e desafios.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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