Um novo 25 de Abril... |
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Passou-se mais uma comemoração do 25 de Abril de 1974. Ao ouvir na rádio os discursos da sessão solene da Assembleia da Republica dei comigo a mudar de estação e fiquei perplexo. Eu que vibrei em uníssono com o povo português naquele dia, que mantive acesa a esperança nas transformações sociais, que acreditei numa nova sociedade a construir, encontro-me agora descrente e cheio de enfado! Procurei encontrar as razões válidas que fazem com que muitos como eu procedam da mesma maneira e deixo-as agora aqui como registos de um tempo que se vive. A Revolução de Abril deu-se numa época em que o mundo ainda vivia dividido entre a razão económica nua e crua e a utopia de a querer transformar com base nas próprias leis da economia. Acreditava-se que mudando as relações de produção e a distribuição da riqueza, nivelando se necessário todos por padrões mínimos de subsistência, se almejaria mudar as pessoas e construir um mundo novo. O muro de Berlim ainda mantinha acesa uma chama, cada vez mais ténue, de uma outra sociedade que nos diziam quase paradisíaca. Era preciso pois deitar abaixo as barreiras dos valores estabelecidos e construir essa sociedade dos homens onde Deus e os valores espirituais não eram precisos para nada. O Homem novo era já um pequeno Deus pois trazia em si os altos ideais da fraternidade, do companheirismo e da educação cívica. Tudo isto nos empolgou naqueles anos após Abril e levou-nos a combates cívicos e políticos na rua, no bairro e nos locais de trabalho. Tudo isto contudo se esfumou ao longo dos anos e hoje deixou de ter o mesmo sentido. A globalização trouxe-nos a sensação que somos poucos e pequenos para combates tão alargados e a economia liberal, que a acompanha, deixou-nos prisioneiros de uma aparente inevitabilidade do curso da história. Hoje sentimos a necessidade de um novo 25 de Abril agora em planos bem diferentes e ajustados às novas realidades sociais. Conquistada a democracia formal e emersos na União Europeia precisamos de nos virar mais para nós próprios e tentar descobrir as causas da nossa apatia e depressão nacional. Os discursos que apesar de tudo ouvi, nomeadamente os do Presidente da Assembleia e da República, falam de uma nova cultura de exigência a todos os níveis que nos pode devolver a esperança na construção de uma sociedade mais livre porque mais culta e mais preparada tecnicamente. Concordo com estas premissas mas ainda acho que falta algo que nos galvanize de novo. A revolução que gostaria de ver anunciada nos discursos era a Revolução do Amor, palavra forte e de conotação imprópria para os políticos actuais. Numa sociedade cada vez mais aberta em que cada um tem que ser responsável pelos seus actos ( a tal exigência de que se falava...) o amor será o cimento que dá coerência ao projecto global da nova civilização. Sem ele continuaremos a correr sem horizonte, a descrer de tudo e de todos, a viver no imediatismo das sensações agradáveis e na depressão de não saber enfrentar os fracassos inevitáveis. Podemos alcançar altos patamares de instrução, de bem estar económico, até de regras de cidadania que permaneceremos com os mesmos conflitos íntimos e com o mesmo grau de perplexidade perante o futuro. Só os valores espirituais, sejam eles quais forem, nos apaziguarão a mente e o coração e nos farão cidadãos equilibrados e felizes. Porque hoje e no futuro próximo, o dilema será a construção de uma sociedade sem Deus ou com Deus, chame-se este Cristo, Maomé ou Jeová... José Dias Egipto escreve nesta coluna todas as semanas. Acrescentar como Favorito (324) | Refira este artigo no seu site | Visualiza珲es: 3429
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