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A Nota Pastoral perante o vazio espiritual

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A propósito da ( infeliz ) Nota Pastoral do Episcopado Português tem havido várias reacções negativas dos nossos intelectuais que me parecem, contudo, algo exageradas. Se é verdade que a Igreja Católica não se pode arvorar como única detentora da verdade nem das normas morais também é verdade que tem alguma autoridade histórica para falar em nome de uma certa maioria populacional que embora cada vez mais afastada da pratica religiosa ainda continua a reclamar-se do Catolicismo Romano como matriz, digamos, espiritual. Por outro lado é inegável que Portugal teve desde a sua génese um ideal profundamente cristão. Basta lembrar o papel preponderante durante séculos da Ordem dos Templários. Expulsa de França e perseguida pelo Papa, por motivos de ordem temporal mas também espiritual, veio a escolher o nosso país para se instalar e recebeu do nosso rei D. Dinis todas as condições para esse fim, que necessitou, aliás, astuciosamente, de lhe mudar o nome para Ordem de Cristo para apaziguar as iras de Roma. Este percurso iniciático de Portugal ligado ao culto do Espírito Santo e à preparação de um Quinto Império ( tão falado, embora diversamente, por Camões, António Vieira e Pessoa ) não pode ser rejeitado por quem serenamente queira reflectir sobre a nossa matriz cultural. Não se pode falar dos Descobrimentos sem falar das Cruzadas que os antecederam e motivaram e no ideal que as norteava. Não está aqui em causa o significado "politico" das mesmas nem os seus méritos à luz dos nossos dias; apenas a constatação de um projecto profundamente cristão ( nem sempre católico romano, como vimos...) que nos fez de facto uma "comunidade de ideal". Se hoje em dia tudo isso desapareceu deve-se de facto às inevitáveis influências externas que temos sofrido e à nossa capacidade de integração do novo e do importado e do esquecimento fácil do que é verdadeiramente nosso. É pois perfeitamente normal que a Igreja Católica como maior confissão religiosa portuguesa, venha agora a apropriar-se de todo este legado histórico e espiritual e chame à atenção para o rumo que levam as sociedades ocidentais. Aliás vários filósofos e ensaístas actuais, alguns até agnósticos, começam já a falar nas consequências da descristianização do mundo ocidental e da falta dos "valores superiores à ordem da vida terrena", como cimento necessário e agregador das sociedades. Está neste caso o filosofo francês Luc Ferry que faz precisamente a distinção entre os valores morais, já bem enraizados nos nossos padrões civilizacionais e os valores espirituais com os quais lidamos com grandes e crescentes dificuldades. Fala-se mesmo da necessidade de uma certa "espiritualidade laica" como tábua de salvação - digo eu - para o desnorte do ritmo de vida moderno. No fundo, quer os nossos intelectuais queiram ou não, é de facto "o confronto entre os que pensam nos valores eternos e os que pensam no imediato sem valores", que está hoje na ordem do dia nas sociedades do primeiro mundo. Ora, era esta problemática espiritual abrangente que devia ter sido o centro da Nota Pastoral e não as pequenas questões da perda hipotética de poder temporal e os receios do desaparecimento futuro de certos privilégios. O diagnóstico estava feito e era convergente até para um leque bem alargado de pensadores, cabia-lhe apenas propor a sua terapêutica face à sua perspectiva do problema.
Poderíamos discordar mas não poderíamos ver nisso qualquer tipo de arrogância moral. Cristo foi, é, e continuará a ser, para todos, a nossa maior referência espiritual e cultural. A Igreja Católica é apenas uma das muitas confissões religiosas que se reclamam do cristianismo ; porém é aquela que mais representatividade teve no nosso percurso como nação. Num regime de total igualdade religiosa como o que se preconiza para Portugal, merece por um critério de justiça e de proporcionalidade ( como outras instituições já o têm em sectores da vida económica, social e cultural ) um tratamento especial. Mas isto não é nada e não passarão, a meu ver, de falsas questões, perante o cerne das causas deste tremendo mal estar geral e deste vazio espiritual que se vive e que necessitam de análises desinteressadas e profundas.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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