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Um país a duas velocidades...

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Todo o cidadão minimamente atento e informado pode constatar, no seu dia-a-dia, as gritantes contradições no estado e no rumo do nosso país. Se por um lado se fala à boca cheia dos milhões de contos que estão e vão ser gastos em grandes projectos de engenharia civil, por outro sabe-se e sente-se, a toda a hora, as inúmeras insuficiências das estruturas fundamentais da nossa sociedade. O cidadão fica assim sem perceber bem as prioridades e acaba por não tomar nenhuma posição esclarecida. Falam-lhe na premência de um novo aeroporto para Lisboa, nas novas ligações ferroviárias à Europa pelo TGV, dos novos estádios de futebol que nos irão prestigiar no Euro 2004, nas novas pontes sobre o Tejo e Douro, etc, e ele rejubila naturalmente com tanto progresso mas quando precisa de ir ao médico, de ter saneamento básico na sua rua, de pedir um empréstimo bancário, de fazer contas à vida, sente-se profundamente injustiçado. Até parece que todo aquele fogo de vistas tinha como única finalidade o encobrimento da precariedade na justiça, na saúde, no ensino, na assistencial social, no planeamento correcto, enfim, das cidades e dos campos. Até lhe parece que há dois países que co-existem lado a lado como duas faces de uma mesma moeda.
Ele como cidadão activo gostaria que quem o governa lhe explicasse quais são as metas e os objectivos concretos para assim poder acreditar que afinal há só um país a construir. Sente que ele próprio seria capaz de dar mais do seu saber em prol da comunidade mas faltam-lhe muitas vezes os testemunhos alheios para encetar novos comportamentos. Como mesmo sem grandes posses pode usufruir de algumas benesses do sistema vai saltitando entre as duas realidades sem se dar conta que não é sujeito mas simples objecto no meio dessa teia de interesses. E neste círculo vicioso vai vivendo, procurando esquecer as suas carências e anseios legítimos com o divertimento que lhe oferecem para passar os tempos livres. Sonha com os êxitos do seu clube de futebol, "curte" a praia e a noite aos fins de semana se ainda é jovem, compra roupa de marca nos saldos, conforme vai podendo, para parecer bem no seu meio de amigos, às vezes embriaga-se, provoca desacatos que não sabe justificar e deixa-se andar ao sabor dos acontecimentos. Sobretudo não lhe falem em compromissos porque ele vive dos expedientes do dia e não vê vantagens em planear o seu próprio caminho. Mesmo no trabalho prefere fazer os mínimos do que sacrificar-se por uma carreira que alguns lhe disseram que afinal não serve para nada. Já lá vai o tempo em que sentia necessidade de competir... Agora só pensa em dinheiro fácil e pouco trabalho. Quando chega a casa no grande subúrbio nem olha já para as carências em que vive - liga a televisão e entra no mundo da fantasia. A sua própria vida decorre em duas velocidades, nas duas faces da mesma moeda - ele é o espelho afinal da própria sociedade que não o ajuda a crescer. Ou será que é ele, afinal, que tem que dar o primeiro passo !?

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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