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A saúde a que temos direito

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Está na ordem do dia a reestruturação do Serviço Nacional de Saúde. A ministra Manuela Arcanjo anunciou a semana passada um programa cuja principal vertente é a separação do sector público do privado. Embora concorde com esta medida não vejo nela o impacto positivo, tão propagandeado pelo governo, para um melhor e mais célere atendimento aos utentes da saúde. Penso mesmo que outras medidas bem mais simples e a custo zero poderiam, gradualmente, melhorar a qualidade dos serviços de saúde. Darei apenas um exemplo : quando eu me formei em medicina há mais de vinte anos o meu curso tinha cerca de 450 alunos finalistas. Ao todo no país foram cerca de 1500 novos médicos que saíram para o trabalho nesse ano. Estes números foram denunciados como excessivos pelos governantes da época porque, segundo eles, havia médicos a mais no país e tinha que se apertar as entradas de novos alunos para as Faculdades de Medicina. Todos nós sabemos o que veio a acontecer com a redução drástica da população universitária em medicina. Ora para grande espanto de todos, passados estes anos, os mesmos poderes políticos deitam agora as mãos à cabeça e clamam que afinal há médicos a menos e que esse facto impede por enquanto uma verdadeira reestruturação do Serviço Nacional de Saúde. Em que ficamos então ? A que verdade tem direito a opinião pública ? De facto o que sucede hoje por todos os Centros de Saúde e Hospitais do país é um fenómeno que é consequência directa do que acabei de descrever. Ou seja, os médicos que realmente asseguram esses estabelecimentos de saúde são, na sua esmagadora maioria, da minha geração mas, entretanto, estão a chegar aos 50 anos de idade, altura em que têm direito à merecida redução de trabalho, nomeadamente nas horas nocturnas e nos serviços de horários contínuos ou intensivos. Estes médicos vão a curto prazo juntar-se a outros, ainda mais idosos, criando uma enorme população de profissionais que não podem já dar aos hospitais aquela mão de obra de que eles tanto precisam ( Serviços de Urgência, Cuidados Intensivos, Emergência Médica, blocos operatórios nocturnos etc). Criado assim este fosso geracional torna-se urgente a renovação e o rejuvenescimento dos quadros médicos e de enfermagem. Mas como substituir então os velhos pelos novos ? Tarefa bem difícil - dirão muitos! Ou talvez não - direi eu! Os novos médicos, como vimos, escasseiam mas mesmo que abundassem teriam que esperar pela reforma dos mais antigos para entrar para os quadros. A solução contudo que preconizo e que se pode iniciar desde já, parece-me fácil, barata e eficaz. Consiste apenas em dar-se a oportunidade e também o incentivo, aos mais velhos, após os 50 anos de idade, para irem preencher lugares nos Centros de Saúde e aí colaborarem com os Médicos de Família na resolução da maioria das situações clínicas que dia-a-dia lá aparecem. Fazia-se assim a triagem correcta dos doentes a enviar aos hospitais, diminuindo drasticamente as listas de espera para consultas e permitia-se que os jovens especialistas entrassem nos serviços e os dinamizassem plenamente. Todos ficariam a ganhar : os clínicos gerais sentir-se-iam mais acompanhados e já não necessitariam de exercer uma medicina tão defensiva como o fazem; os especialistas veriam de novo os seus préstimos valorizados e mais recompensados em termos profissionais em vez de andarem a fazer numero nos corredores dos hospitais; os utentes veriam um seu anseio antigo concretizar-se - tinham os especialistas no terreno a colaborarem com o seu Médico de Família ; por fim o estado pouparia milhões de contos por ano ( é bom que se diga que um especialista hospitalar a partir dos 50 anos só dá prejuízo aos hospitais e que há um pedido desnecessário de meios complementares de diagnóstico no ambulatório ) e planificar-se-ia, finalmente, a assistência às populações. Todos os meus colegas sabem bem do que estou a falar. Sabem também que esta reestruturação valia a pena para todos. Assim o ministério queira ver a realidade e saiba actuar em conformidade, sem necessitar de acenar com os papões das incompatibilidades e criar conflitos desnecessários, porque há outras medidas simples e prioritárias a tomar.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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