Educação sexual ou dos afectos ? |
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Vai ser implementada no próximo ano lectivo a educação sexual nas escolas portuguesas. O modelo é basicamente importado da Europa e pretende essencialmente, tal como nos outros países, evitar a gravidez na adolescência e prevenir as doenças sexualmente transmissíveis ( D.S.T.). Tenho tido alguns encontros com professores do Ensino Básico e Secundário e sinto neles grande perplexidade face à implementação deste projecto. Vale a pena pois reflectir sobre alguns dados divulgados nas mais diversas revistas científicas sobre a realidade de outros países e sobre a eficácia de tais programas nas escolas. Vou socorrer-me, entre outros, de artigos saídos na revista Pediatrics este ano, de trabalhos apresentados no XVI Congresso Português de Obstetrícia e Ginecologia e de reflexões do Prof. Mário Cordeiro já saídas em livro há alguns anos. Nos Estados Unidos da América ( E.U.A.) por exemplo cerca de 60% dos alunos do ensino secundário declaram já ter tido relações sexuais, mantendo-se sexualmente activos na sua esmagadora maioria ; 21% já tiveram mesmo mais do que 4 parceiros. Por estranho que pareça os E.U.A. possuem uma das taxas mais elevadas no mundo de gravidez na adolescência. Destes jovens sexualmente activos cerca de um quarto ficam anualmente infectados por uma D.S.T. número que se cifra na casa dos 3 milhões. Quanto mais jovem é uma rapariga ao ter a sua primeira relação sexual maior é a probabilidade dessa relação ter sido involuntária ou forçada. Nesta conformidade o abuso sexual é um dos crimes em crescimento mais acelerado nos E.U.A. Por outro lado os meios de comunicação social ( M.C.A.) são tidos como o factor de maior responsabilidade no início cada vez mais precoce da actividade sexual. Basta dizer que uma criança quando termina o ensino secundário terá dispendido 15 mil horas a ver televisão em comparação com as 12 mil horas lectivas. Este estudo conclui que nos filmes, na televisão, na publicidade e nas letras das músicas as mensagens sexuais estão a ficar cada vez mais explícitas e que geralmente estas mensagens contêm informação irreal, imprecisa e errada que os jovens aceitam como factos sem as questionar. O estudo conclui também que não existem ainda provas de que o aumento dos conhecimentos sobre sexo ou o aumento do acesso ao controlo da natalidade afecte a probabilidade de os adolescentes terem relações sexuais mais precocemente. Ainda há bem pouco tempo ficámos a saber pelos jornais que na Inglaterra apesar de todas as campanhas de educação sexual nas escolas as gravidezes na adolescência não tem diminuído e que o governo estava a pensar em iniciar uma campanha a favor da virgindade. Passar-se-ia do 80 para o 8 como se isto fosse possível! Ficamos assim todos confusos perante os dados destas experiências e perguntamos legitimamente qual será a nossa realidade actual e que benefícios poderá trazer esta nova estratégia do governo. Sem grande rigor embora, poderemos dizer que o número de mães adolescentes tem vindo a crescer em Portugal cifrando-se em 1999 pelas 8 mil sendo que destas mais de cem se situam entre os 12 e os 14 anos. Num estudo feito numa consulta para este fim tentou-se fazer um retrato social e psicológico destes jovens e chegou-se à conclusão que têm uma elevada taxa de insucesso escolar, são de meio socio-económico baixo, que abandonam a escola antes ou depois do parto, que procuram trabalhos indiferenciados e que em 10% dos casos já vão na segunda gravidez. Engravidam não só por má informação contraceptiva mas também como ritual de passagem para a idade adulta, em confronto muitas vezes com a família, numa procura de preenchimento de enormes vazios afectivos através de um novo projecto de vida quando todos os outros já tinham há muito falhado. Vale a pena pois pensar em tudo isto antes de bombardear a nossa juventude com noções de sexualidade e contracepção. Num encontro de professores que já encetaram a educação sexual nas suas aulas, ocorrido este ano, verificou-se que 80% deles tinham optado por referir apenas os aspectos anatómicos e fisiológicos relacionados com as D.S.T. como forma mais fácil, e para eles possível, de abordar o problema. Ora isso, como alguém disse nesse encontro, é como estar a ler um livro pelo último capítulo. Mas os professores sentem-se pouco preparados, sem competências mínimas para esta nova tarefa. Não sabem como devem lidar com os pais quando inevitavelmente surgirem conflitos entre os valores transmitidos pela família e pela escola. Estão extremamente receosos e impreparados e eu dou-lhes inteira razão. Que o Homem é um ser sexual ninguém duvida. Que a aprendizagem sexual é um processo contínuo e gradual durante todo o ciclo vital com várias componentes ( não só eróticas e genitais, note-se bem ) é o que parece não ser a opinião de quem legisla. As necessidades e experiências sexuais dos indivíduos têm um carácter único e variam assim segundo a cultura dos povos, a idade, as preferências e as referências pessoais e de grupo ( religião, aptidões académicas, usos e costumes, etc.) não pode pois ser abordada de igual maneira a todos e em grupos heterogéneos. As crianças, desde muito cedo, devem, na família, aprender a educação emocional e só depois a sexual mas isso infelizmente é cada vez mais raro e difícil. O ideal seria que todos fossem informados ( é um direito que lhes assiste) de modo a poderem avaliar sempre os seus actos e a fazer opções responsáveis mas sempre de acordo com os seus padrões morais e culturais. Caso contrário temo que a divulgação em massa e sem critérios do "fruto proibido" venha a trazer graves conflitos nas escolas entre pais e Encarregados de Educação e a aumentar os nossos índices de gravidez na adolescência e de praticas sexuais cada vez mais precoces. O futuro dirá se tenho ou não razão ! José Dias Egipto escreve nesta coluna todas as semanas. Acrescentar como Favorito (319) | Refira este artigo no seu site | Visualizaes: 4082
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