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A nossa Capital Europeia da Cultura

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Às vezes imagino-me um turista europeu acabado de chegar ao Porto, Capital Europeia da Cultura e penso no que sentiria ao vê-la e ao percorrê-la.
O parque hoteleiro não desmerece dos congéneres europeus e por aí poderia dizer que tinha ficado bem instalado e que o serviço tinha sido de qualidade e de óptimo preço. O mesmo se pode aplicar aos restaurantes que são de facto, de uma maneira geral, óptimos na qualidade dos alimentos e nos preços praticados. Procuraria ele, contudo, com certeza, uma esplanada para me sentar e apreciar a vida da cidade; aí iria ter muitas dificuldades a menos que fosse para a zona da Ribeira. Os portuenses nunca tiveram o hábito de sair à rua ao fim da tarde e à noite no Verão e preferem ficar em casa a ver televisão ou a dormir. A baixa do Porto à noite está cheia de mendigos que nos assediam com pedidos e nos deixam embaraçados. O turista por mim imaginado pensaria que somos um povo triste e pobre e teria medo de vaguear pelas ruas assim desertas. Perguntaria então, no dia seguinte, pelos monumentos e museus e de, mapa em punho, desceria e subiria ruas à procura do património arquitectónico e cultural. Veria com espanto muitas obras nas ruas mas ficaria mais chocado com a degradação imensa das fachadas das casas e com os anúncios enormes cobrindo algumas de bela traça, desfeadas também por montras rasgadas sem critério e à revelia do desenho original. Procuraria as pessoas nas janelas mas nada veria ; mais tarde alguém informado lhe diria que mais de vinte por cento das casas permaneciam desocupadas ou em ruína interior. Ainda procurando os museus encontraria a maior parte deles fechados com excepção de Serralves que lhe podia enfim proporcionar a beleza dos jardins e dos novos espaços culturais. Quanto a jardins só o do Palácio de Cristal lhe mereceria atenção e o ambiente digno desse nome. Mas ele tinha ouvido falar na Igreja de S. Francisco, na Torre dos Clérigos, na Igreja se S. Clara; em todas encontrou portas fechadas ou falta notória de informação. Aturdido pensou em ir a um espectáculo do programa que lhe tinham oferecido no hotel mas quando chegou às bilheteiras já estavam todos esgotados; pensou então no que fazer nos dois dias que ainda lhe restavam mas nada mais havia, aparentemente, para visitar. Comparou então a imensa oferta cultural e de lazer da sua cidade europeia com as do Porto e sentiu que este país e esta cidade ainda tinham muito que evoluir. Quando chegou a sua casa e aos seus amigos desabafou : - o Porto é uma cidade muito bonita vista do rio, tem um centro histórico interessante mas mal tratado, tem museus e igrejas fechados que não conheci, um trânsito caótico, não tem Metro para podermos sair para a periferia, as pessoas parecem tristes e acabrunhadas embora simpáticas e diligentes. Quanto à tal Capital Europeia da Cultura não a encontrei em lado nenhum - deve ter sido engano do meu agente de viagens...

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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