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Nostalgia do Futuro

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Estamos num tempo de pausa, uma espécie de pousio politico e ideológico, entre as colheitas passadas e as sementeiras que se hão-de poder fazer. Como na terra seca e pobre, que precisa de descansar, também no nosso tempo há escassez de matéria orgânica, de substrato humano para dar alimento às searas das ideias e aos bosques promissores das utopias.
Temos hoje a sensação que, apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, já houve outras épocas da História bem mais férteis de inspiração e de criação, a todos os níveis, e bem mais exaltantes para serem vividas ( não se trata de balofas nostalgias de um passado que não se pode repetir; trata-se de preparar um futuro que valha a pena) . Na falta de projectos colectivos, cada um a seu modo tem que inventar o seu que se não normalizado e vanguardista ( a norma hoje passou a ser a anti-norma ) merece o escárnio e a rejeição dos demais. Ficamos assim pensadores de vistas curtas, oradores solitários, pequenos deuses sem Olimpo, espectadores passivos e sem alternativa da monótona e galopante globalização. Que nos importa que saiam e entrem governos, que o fosso entre os pobres e os ricos no mundo se acentue, que o vizinho sofra numa cama de hospital, se o viver em sociedade está programado apenas para o olhar de soslaio, para a velocidade dos desejos, para a esquizofrénica panóplia de comunicações reais e virtuais, para a exclusiva e única vontade de agradar a tudo e a todos? Não há ainda ,de facto, o arado espiritual que possa sulcar estas terras áridas, duras e pedregosas, onde nem as ervas daninhas dos pequenos gestos sobrevivem; nem há a chuva necessária chuva para a regar. E há tanto tempo que não chove nas cidades dos Homens!... Porque é de chuva e de ventos fortes que mais precisamos, que nos faça de novo correr juntos a abrigar num corpo-a-corpo solidário e fraterno. Só assim poderemos sair depois para a rua enfrentando outras águas e outros gases que os poderosos deste mundo teimam em lançar para nos separar. Só assim o sangue jovem que tombou em Génova pode ser um sinal de um qualquer despertar e um primeiro fermento para tornar a nossa Terra arável.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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