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Nunca se invocou tanto o nome de Deus nos discursos políticos como nesta última semana, após o aterrador atentado terrorista nos Estados Unidos da América. E de facto perante este espectáculo macabro até parece que a Humanidade já não tem forças capazes, dentro de si mesma, para se regenerar e poder curar, de vez, tantas feridas sangrentas.
Esquecem-se porém os políticos, de ambos os lados da contenda, que esse Deus, em que dizem acreditar, será com certeza um Ser Universal e que deu aos Homens a capacidade de escolha racional, o livre arbítrio para conduzirem este planeta para o destino que muito bem quiserem.
Serão sempre os Homens que se poderão aproximar, progressivamente, desse Absoluto, através do exercício dos seus dons espirituais, qualidades e capacidades inatas que podem fazer maravilhas, e criar um Reino de Deus terreno e palpável. Não há escritura sagrada que não aponte este desiderato e contudo quão longe estamos todos de o alcançar... Talvez valha a pena aqui invocar tudo o que se tem dito sobre os avanços tecnológicos, que postos ao serviço do bem estar planetário poderiam trazer a paz almejada ; os sentimentos primitivos, de racismo e xenofobia, que grassam ainda, como se dois ou três mil anos não tivessem chegado para os debelar ou atenuar significativamente; os fanatismos religiosos que escondem tantas vezes interesses obscuros e nos fazem recuar às intolerâncias arcaicas da Idade Média; a cobiça do poder, que se aloja no coração de cada um, que transforma o mundo num enorme tabuleiro de xadrez onde cada jogada para abater " as torres" do inimigo é motivo de enorme regozijo; o materialismo desenfreado, que, afastando o lado mais divino de cada um, reduz o convívio em sociedade a uma mera troca de objectos e de prazeres fugazes... Mas é precisamente por tudo isto que a invocação do nome de Deus - vinda de onde vier - se torna quase obscena aos nossos ouvidos. Num mundo dividido - entre Estados aparentemente laicos que secularizaram o sagrado e divinizaram o Homem e os seus bens materiais, ao ponto de pretenderem tudo explicar pela ciência, baseados embora em princípios justos emanados de uma bonita Declaração Universal dos Direitos do Homem, que todavia não cumprem na integra, e os Estados, implícita ou explicitamente, confeccionais que acreditam numa transcendência castigadora e interventora que lhes dita as mais comezinhas normas de vida, como se o tempo tivesse parado há milhares de anos, e que lhes dá uma "autoridade divina" para se emularem e matarem o próximo inocente, mantendo-se imunes e fechados a direitos inalienáveis do Ser Humano - a diabolização dos opostos é, infelizmente, inevitável e extremamente perigosa. Neste contexto "invocar o nome de Deus em vão" continua a ser um grande pecado contra a Humanidade, porque ninguém tem o direito, nem a autoridade moral sequer para o fazer. Se o Ocidente não tem "kamikases" não é porque a sua fé seja elevada e esclarecida, mas sim porque fabricou uma sociedade hedonista em que ninguém acredita e se sacrifica verdadeiramente por coisa nenhuma; por outro lado os "kamikases" ainda existem, no reverso desta moeda, porque há atrasos civilizacionais enormes que ainda não foram superados e que são muitas vezes alimentados pelos nossos testemunhos de descrença nos valores espirituais que dão o sentido à vida. Valores esses que nos deviam unir a todos, há muito, fazendo deste pequeno planeta uma verdadeira e duradoira morada divina onde Deus, aí sim, nos pudesse, naturalmente, abençoar...

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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