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O nosso Nobel e a religião.

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Muitas reacções suscitou, em vários quadrantes ideológicos, o artigo recente do nosso Nobel da Literatura, intitulado o "factor Deus", num dos nossos maiores jornais diários. Nesse artigo, a propósito das causas dos ataques terroristas nos E.U.A., Saramago, proclamando-se mais uma vez ateu, tece várias considerações sobre o papel nefasto das religiões, ao longo da história, que invocando o nome de Deus sempre fomentaram a guerra e a desunião entre os Homens. Muitos comentadores apontaram a sua cegueira para os crimes cometidos pelos regimes políticos de esquerda por esse mundo fora ; outros enfatizaram o seu idealismo que seria contraditório num homem que se reclama materialista e ateu; outros ainda sentiram-se ofendidos na sua religiosidade. Gostaria de fazer uma abordagem diferente, pondo em confronto a obra literária do escritor com algumas declarações avulsas, em entrevistas e artigos, do homem José Saramago. Quem leu as últimas obras do autor não pode deixar de reconhecer uma visão arguta e esclarecida sobre as sociedades de hoje e uma esperança nas capacidades racionais do Homem que o levem a construir uma sociedade fraterna e solidária. É tão precisa esta análise e tão profundo este desencantamento ( sócio-económico-social ) do mundo de hoje, como é convicta a fé nas possibilidades de o transformar ( através de valores superiores, éticos e morais, que deverão nortear a conduta social de cada um ) e de nos remeter, assim, para uma sociedade quase paradisíaca. Em muitas passagens dos seus livros há trechos lindíssimos, de uma beleza que roça a mais pura espiritualidade. O seu fascínio, não assumido, por Jesus Cristo e a sua necessidade constante de se dizer ateu não são mais, a meu ver, do que barreiras exteriores que construiu e as quais não quer derrubar para não trair todo o seu percurso de vida. Um homem que se quer manter fiel a um ideal puro, que condena todos os poderes seculares das Igrejas instituídas, que vê nesse poder a maior fonte de discórdia entre os Homens, é um crente verdadeiro - no reverso da perspectiva mais comum - numa entidade única que nos criou na escuridão infinita de um passado mais que remoto ( que nem a ciência descobriu ou virá a descobrir ) o qual nos terá dado o livre arbítrio para sermos o que quisermos, marcando-nos nos genes, a par da capacidade de evoluir e de sermos criadores, com o poder de atingir o topo da pirâmide da criação através do máximo de felicidade no máximo de lucidez. São estes seres de excelência que Saramago gostaria de ver já neste século, que trespassam já, ás vezes, as personagens dos seus livros, e que o torna um homem profundamente idealista e religioso. Poderá continuar a dizer, em entrevistas e artigos, que Deus não existe a não ser sob a forma da necessidade que os Homens têm dele, para poderem viver. Mas se Saramago falar menos e ouvir mais a sua obra encontrá-lo-á, frequentemente, nas suas entrelinhas.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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