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Os extremos que se tocam.

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Li hoje num jornal as conclusões de um relatório oficial sobre a violência sexual nas escolas francesas. Fiquei a saber que as escolas mistas, que foram uma conquista da nossa civilização, bem recente por sinal em Portugal ( no meu tempo do liceu os sexos ainda estavam separados nas escolas ), se estão a transformar em autênticas máquinas de esmagar a dignidade das pessoas tal é a frequência das agressões e violações de que são alvo os alunos principalmente do sexo feminino.
Não posso deixar de fazer um paralelo com o que se passa no Afeganistão actual onde às mulheres é vedado o simples direito à frequência das escolas. A violência sexista aparece-me assim com duas faces bem distintas mas que são igualmente reprováveis e repulsivas.
No mesmo relatório, curiosamente, fala-se que estes comportamentos dentro da escola reflectem apenas uma tendência mais vasta da sociedade em geral que se traduz na negação pura e simples dos direitos do outro e do culto de praticas hedonista e narcísicas. A estima por si mesmo e o respeito pelos outros são sentimentos em declínio nos jovens deste país tão paradigmático das sociedades ocidentais ditas civilizadas! Já se sabia, por outros relatórios idênticos, que na Inglaterra as aulas de educação sexual, implementadas há anos como prevenção das doenças sexualmente transmissíveis e como corolário dos direitos dos jovens à informação, parecem contribuir, paradoxalmente, para um maior numero de gravidezes na adolescência e para o aumento da violência sexual juvenil.
De novo a situação das mulheres no Afeganistão me convida a comparações e me chama a atenção para a prudência necessária nas nossas recomendações, tantas vezes arrogantes, perante outras culturas e valores. Ninguém pode deixar de acusar a descriminação brutal das mulheres em certos países islâmicos. Mas aqui como em muitos outros aspectos devemos ter a humildade de reconhecer que certos padrões civilizacionais que tentamos exportar estão também feridos de morte e que por isso não servem de testemunho da verdade e da justiça. Serve às vezes para em oposição a este nosso materialismo desenfreado se praticarem as mais arbitrarias imposições morais com base numa transcendência castigadora e arcaica. Entre o oitenta e o oito há com certeza o lugar à sociedade a que todos nós, qualquer que seja o tecido cultural, temos direito.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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