Era o vinho meu Deus... |
|
|
|
|
Em Portugal discutiu-se na semana passada, até com o ardor das manifestações de rua, o novo limite permitido da taxa de alcoolemia para quem conduz viaturas automóveis nas estradas. O governo tirando "um coelho da cartola" quis, por artes mágicas, diminuir significativamente a sinistralidade rodoviária baixando as taxas permitidas de alcoolemia de 0,5 para 0,2 gr/litro. Fiquei a saber, entretanto, pela imprensa, que a opinião do líder do maior partido da oposição seria até, em tempos, mais radical do que esta! Para um cidadão medianamente esclarecido esta medida é, para além de demagógica, totalmente incompreensível. Como pode o governo esquecer-se que somos um pais do sul da Europa, produtor de vinho e, mais do que isso, que em termos de saúde pública não é propriamente o consumo moderado de vinho de mesa corrente que se deve combater? Não perceberão que a prioridade deve ser dada ao combate dessa moda crescente, sobretudo nas camadas jovens e logo a partir dos dezasseis anos, das misturas "explosivas" entre bebidas "brancas", estranhas aos nossos hábitos culturais, e a dependência preocupante (como uma droga afinal) que esse consumo tem vindo a criar?! Eu como médico nunca ouvi ou li nada que me dissesse categoricamente que o nosso vinho tradicional, bebido às refeições com moderação, fizesse algum mal à saúde de um cidadão saudável. Pelo contrario têm-me chegado ultimamente relatos de resultados de trabalhos científicos em que parece provar-se precisamente o contrario. É então neste contexto ( social e científico ) que o governo quis ser pioneiro na Europa ( ombreando apenas com um país não mediterrânico ) e decretou uma medida extremamente restritiva, não baseada em nenhum trabalho cientifico, e com prejuízo claro dos nossos agricultores, tão marginalizados já em relação aos seus congéneres europeus. O problema da sinistralidade rodoviária em Portugal é bem complexo e não se corporiza em dois copos de vinho maduro bebidos numa refeição. É essencialmente o espelho do nosso atraso educacional, da falta de medidas repressivas sérias frente às mais perigosas e quotidianas infracções, do envelhecimento do parque automóvel e de muitas deficiências ainda nas infraestruturas rodoviárias. A taxa máxima permitida de alcoolemia em vigor até há semanas, de 0,5 gr/litro, era perfeitamente suficiente para prevenir os acidentes causados pelo efeito nefasto do álcool - assim a vigilância se fizesse... Torna-se agora legitimo perguntar se estão também na forja outras disposições legais, tão efectivas e pragmáticas como esta, para verificação de outras taxas e respectivas punições. Estou a lembrar-me por exemplo da taxa de competência para conduzir dos recém encartados, da taxa de eficácia das vistorias periódicas aos veículos antigos, da taxa do numero de estradas em mau estado, etc, etc. São medidas de fundo que é urgente implementar e que não sairão milagrosamente de cartolas por decreto em campanhas de "charme" para Europeu ver; têm custos muito altos que o governo não poderá ou quererá, eventualmente, suportar. Mas por favor não nos atirem com os vapores do álcool a 0,2 gr/litro que não escondem nada porque são inofensivos ou inexistentes e deixam afinal tudo bem a nu... José Dias Egipto escreve nesta coluna todas as semanas. Acrescentar como Favorito (319) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 3169
Só utilizadores registados podem escrever comentários. |
||||
| < Artigo anterior | Artigo seguinte > |
|---|








