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Urina do diabo...

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O que mais nos espanta nesta guerra que o Ocidente trava contra o terrorismo é constatar o flagrante desapego pela vida dos homens incumbidos de tais missões suicidas e a sua ligação estreita com um Deus que julgam interventivo e castigador.
Faz-nos também muita impressão a forma irracional e cruel como o regime politico que os suporta no Afeganistão trata os mais variados aspectos da vida social, desde o desprezo pela musica ou qualquer outra expressão da arte, até à imposição do analfabetismo às mulheres e a sua total exclusão da vida social.
Pensamos logo nos porquês de toda esta situação e da falta de desenvolvimento de países tão ricos em reservas naturais, produtores de petróleo e de gás natural que chegariam para abastecer toda a Europa, e atribuímos esse desleixo à sua forma de viver, à sua religião e à sua organização social baseada em oligarquias quase feudais. Mas ficamos perplexos também quando sabemos que eles atribuem precisamente ao petróleo a origem de muitos dos seus males ao ponto de lhe chamarem a "urina do diabo". O diabo seria neste contexto o Ocidente, o responsável pela pobreza dos seus países e pela decadência da sua cultura e civilização, e a urina esse líquido viscoso que teria tanto de precioso como de maléfico e vexatório.
Onde está a razão afinal? Não poderiam eles prosperar com os benefícios do petróleo mesmo sabendo que grande parte do lucro vai para bolsos ocidentais?
Muitas teias históricas tiveram que ser tecidas, no século passado, feitas de ganâncias e traições, para que a tão nebulosa situação se tenha chegado... O diabo e o Deus tantas vezes invocado não são mais do que desculpas para erros que todos cometeram e que não querem reconhecer. A cultura e civilização árabes e a religião islâmica só podem ser fontes de riqueza e paz e disso deram prova num passado já longínquo. O Mediterrâneo não pode ser um muro no futuro; a sua vocação foi e será sempre a de unir povos e culturas, a de ser berço das maiores conquistas da Humanidade. Uma nova ordem mundial só fará sentido quando o terrorismo for banido, mas para isso é preciso que, desde já, sejam cortados todos os seus tentáculos e que as bases sócio-económico-sociais que o apoiam deixem de fazer sentido. As leis do comercio mundial, por exemplo, têm que ser reformuladas com benefícios evidentes para os países pobres do hemisfério sul e a reunião da Organização Mundial do Comercio (OMC), a decorrer nestes dias, tem que dar dessa mudança um primeiro sinal. Depois de tudo reformulado talvez se possam encontrar muitas alternativas energéticas validas ao petróleo ( já confirmadas, aliás, cientificamente ), bem mais saudáveis para o ambiente, e ele deixe assim, definitivamente, de ser pensado e "vivido" como um símbolo negativo da nossa era ou seja como a própria "urina do diabo"!

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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