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A visita de Daila Lama

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A propósito da vinda de Daila Lama ao nosso país muito se disse e escreveu, ao longo da semana, mas, curiosamente, sempre sobre as circunstâncias de tal visita e muito pouco ou nada sobre o impacto social da aparição pública deste líder espiritual.
Há dados concretos que podem objectivar este fenómeno : a venda de livros, sobre budismo em geral e sobre o Tibete em particular, subiram exponencialmente fazendo com que alguns se tenham esgotado pura e simplesmente ; as pessoas que compareceram durante a semana às reuniões abertas ao público foram não só em grande numero, tendo no Porto por exemplo esgotado o pavilhão Rosa Mota, mas também de uma grande diversidade etária e sócio-cultural.
Urge portanto reflectir sobre este fenómeno social e tentar descobrir-lhe as causas mais profundas, ultrapassada a provável e natural, curiosidade pura. Porque será, por exemplo, que muitos intelectuais ditos de esquerda não tiveram acanhamento em comparecer, como simples cidadãos, no meio das multidões que quiseram ouvir este líder espiritual? Será que o não teriam também se esse líder fosse cristão e ocidental? Não o creio, por muito mediático que fosse tal individualidade. Mas afinal porque é que o budismo tem tido, desde as últimas décadas do século passado, uma tão grande aceitação entre os intelectuais do ocidente? Que fará correr agora, por exemplo, alguns antigos maoistas a ouvir um tibetano falar de desapego e compaixão, oprimido na sua terra natal precisamente pela, outrora tão propagandeada, Republica Popular da China? Se é verdade que há uma resposta sincera e crescente em muitos ao apelo, no meio do deserto materialista vigente, para uma qualquer espiritualidade que conduza a um caminho de auto-conhecimento, também é verdade que o budismo passou a ser uma espécie de moda, a que poderíamos chamar a religiosidade disfarçada e "chique" dos nossos dias. Ele vem dar resposta, de facto, àqueles que, não encontrando um sentido último para a vida, porque renegam as religiões instituídas ou a simples crença num criador, encontram no seu seio a possibilidade de viver melhor, sem necessidade de procurar esse sentido. Como já muitos pensadores o disseram ( Luc Ferry por exemplo ) o cristianismo, por culpa própria, digo eu, choca num mundo que se quis laico, e muito bem, enquanto que o budismo escapa a essa censura porque vem de encontro ao sentido da "ideologia dominante" desta sociedade liberal em que cada um " à la carte" escolhe o que lhe convém, sem necessidade de aderir a nenhuma verdade ou dogma que o possa comprometer. Aparece assim Daila Lama, aos olhos de muitos agnósticos e ateus, como o oposto do Papa, porque não apela, como este, para um Deus revelado aos homens e com eles comprometido. É por este facto e pelas dificuldades crescentes de comunicação e de transmissão de ideias e conceitos, que as instituições religiosas, sejam elas quais forem, não são hoje bem aceites na nossa sociedade, mesmo que as palavras que se ouçam dos seus líderes remetam para os mesmos valores de tolerância, compaixão e amor fraternal. Os aspectos mais exotéricos do discurso budista, proclamados por Daila Lama na sua digressão por Portugal com tão grande impacto, são extremamente simples e vão directamente ao coração de quem os ouve. Poderão despertar a curiosidade de muitos para o aprofundamento dos conhecimentos da sua filosofia de vida e isso é muito importante nos dias de hoje. Talvez esse aprofundamento possa levar a uma melhor compreensão também do cristianismo pela natural tendência às comparações. Assim todos poderão saber melhor do que estão a falar e fazer opções conscientes e de acordo, não com as palavras mais ou menos sedutoras, mas com o mais íntimo do seu ser. O desabar das utopias sociais e a secularização das religiões deixou, no Ocidente, aberto o campo ao budismo porque todos nós permanecemos, muitas vezes sem o reconhecermos, sequiosos de algo que nos transcenda e que dê sentido à nossa vida, às vezes tão fastidiosa. Já não nos chegam os itens da Declaração Universal dos Direitos do Homem como únicos preceitos "morais" para orientarmos as nossas sociedades. Queremos ir mais longe para alcançarmos o consolo que dê resposta à nossa galopante solidão. O que provavelmente não sabemos ou ninguém nos diz, o que é ainda pior, é que não precisamos de fugir para o Oriente para o encontrar !...

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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