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Portugal com outros olhos

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Às vezes é preciso sair do país ou ler a imprensa internacional para podermos formular uma opinião, com um mínimo de razoabilidade, sobre muitos dos assuntos de que se fala hoje em Portugal e que foram por exemplo armas de arremesso político nas ultimas eleições. É frequente ouvirmos ou lermos nos órgãos de comunicação social, opiniões de pessoas que se acham no direito de falar sobre tudo sem terem a mínima preparação para o fazer. Até nos debates televisivos ou nos comentários dos jornalistas recém formados que pululam nas rádios e televisões, ouvimos os comentários mais descabidos sobre assuntos que outros, que não são ou não querem ser chamados a depor, levaram anos a estudar e a pesquisar para poderem chegar a uma opinião rigorosa. Este " achismo" português, já denunciado por alguns articulistas mais lúcidos e honestos intelectualmente, que de tudo fala como se de tudo soubesse, é posto a nu quando temos acesso a outras fontes de informação ou quando podemos ver com os nossos próprios olhos as realidades de outros países. Fala-se por exemplo nas listas de espera para cirurgias nos nossos hospitais, na crise da educação, na violência juvenil, na insegurança nas ruas e em muito mais, como se estas realidades fossem apanágio apenas do nosso país e da exclusiva responsabilidade dos diversos governos que vão passando. Ora basta atravessar a fronteira para encontrar em Espanha, nos jornais e nas televisões, o mesmo tipo de preocupações e ficar a perceber, por exemplo, que a incultura e a impreparação dos jovens é semelhante e motivo de grande debate ; basta ler a imprensa Inglesa para ficar a saber, por exemplo, que neste momento as listas de espera nos hospitais públicos para cirurgias são tão grandes ( num país que possui para muitos o modelo perfeito de Serviço Nacional de Saúde ) que o governo se vê na necessidade de "exportar" doentes para a Alemanha e para outros países europeus para tentar colmatar tal situação. Muitos outros exemplos se podem encontrar facilmente por essa Europa fora que, não desculpando os nossos males, os relativiza muito mais. Seria bom de facto que deixássemos de vez de dizer mal de nós mesmos e começássemos a pensar os assuntos de uma forma mais ampla e global. O mundo ocidental, com a sua economia cada vez mais liberal, enfrenta uma crise social grave que se traduz em cada país de forma diferente e proporcional à sua riqueza mas cuja matriz é por todos partilhada por igual. Essa crise tem como base a economia desregulada mas como poderoso fermento a falta gritante de valores morais e espirituais que se revela no desnorte de cada cidadão e potencia muitos dos fenómenos de violência, insegurança e exclusão social e cultural. Não pode haver pois um remédio especifico para um só país mesmo que os governos mudem de rostos ou de cor politica como tem acontecido ultimamente por toda a Europa. A solução terá que ser muito mais abrangente do que certos apressados "especialistas" da economia e das ciências sociais "acham" e não será com a alteração da forma dos discursos ( quase sempre com novas e atraentes demagogias ) nem com o "bota-abaixo" constante de governos que se vai encontrar a saída desejada por todos. Há, com certeza, outras formas de fazer politica e outros valores a perseguir...
Se todos os portugueses pudessem ler a imprensa europeia ou pudessem ver "in loco" a realidade de outros países, nossos parceiros, talvez tivessem mais amor próprio, pensassem mais profundamente nos assuntos e quisessem contribuir com o necessário pragmatismo para o muito que há a fazer. Talvez deixassem de, sentados nos seus pequenos tronos, "achar" sempre que sabem tudo sem nada fazerem verdadeiramente para transformar a realidade que os cerca.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.




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