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A Bomba ou a Vida

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Em pleno século vinte e um, homens e mulheres palestinianos, na flor da idade, carregam, camufladas na cintura, bombas que fazem deflagrar nos sítios mais movimentados de Israel imolando-se assim pelo fogo e levando consigo dezenas de inocentes. São o rosto de um novo terrorismo à escala mundial que em desespero de causa promete continuar, apesar de todos os meios militares e policiais empregues para o combater. Nós, neste canto adormecido da Europa, não conseguimos perceber como é possível chegar a estes extremos e nem sequer conseguimos chegar a uma posição coerente sobre este conflito no Médio Oriente. Vem-nos à ideia outras causas mais próximas de nós - Timor por exemplo - e a forma tão diferente que usou, aquela comunidade também oprimida, para levar de vencida os seus objectivos nacionais. Os Timorenses são na sua maioria cristãos e rezavam sob o fogo da metralha Indonésia vendo os seus irmãos morrerem a seu lado. Bem sei que havia grupos de guerrilha organizados nas montanhas que faziam os estragos que podiam no poderoso exercito Indonésio. O desespero era idêntico e a solução que perseguiam também se esfumava em cada dia que passava. Porque não enveredaram então por esta espécie de terror ? Será apenas a cultura e a religião dos povos árabes que promove este género de atitudes? Será que assim chegarão mais depressa que os Timorenses à resolução do seu problema territorial? Será que o povo judeu, organizado numa democracia de tipo ocidental, cujo exercito ocupa indevidamente a palestina, não se pode comparar ao Indonésio, que se regia, na altura, por uma ditadura feroz? Muitas perguntas que nos inquietam a mente e que nos fazem pensar um pouco mais além das noticias constantes e arrepiantes que nos chegam dia-a-dia.
A nossa matriz cristã dificilmente toleraria a pratica do terrorismo através de homens-bomba e a comprová-lo está a História que nos fala do fenómeno dos "kamikases" apenas no âmbito de outras religiões e culturas. Por outro lado a nossa sociedade está cada vez mais dessacralizada e ninguém seria capaz de se sacrificar por um ideal nacional servindo-se da sua (nossa) fé religiosa. O "sacrifício heróico" já foi enaltecido noutros tempos pelo Cristianismo em muitas circunstancias de guerra mas mesmo assim sempre remetido a atitudes individuais que não comprometiam directamente terceiros inocentes. Muitos destes homens e mulheres são hoje venerados como santos e são exemplos da fé levada às últimas consequências. Na Irlanda do Norte, por exemplo, onde cristãos se degladiam mutuamente, apesar de toda a crueldade cometida, não passa pela cabeça de ninguém que em nome de Deus alguém se torne ou tornasse homem-bomba para defesa dos seus pontos de vista políticos ou religiosos. O fanatismo religioso só pode germinar em sociedades fechadas em que o poder temporal e religioso se confundem de forma absoluta. Não podemos concebe-lo em sociedades laicais como a nossa embora, há que lembrá-lo, as sementes da violência medrem, actualmente, no Ocidente, noutros terrenos de forma crescente e inquietante. Na própria democracia israelita há fanáticos capazes de matar por motivos religiosos como ficou bem patente no assassinato do moderado chefe de governo Isak Rabin.
É assim no meio de tanta perplexidade que vamos vivendo acreditando que estamos imunes a toda esta espiral de ódio extremista e, pior do que isto, tornando-nos de certa forma imunes à barbárie alheia. Esquecemo-nos que os sentimentos mais negativos têm uma força incalculável e que sem o querermos verdadeiramente os vamos assimilando para as nossas comunidades. O mal ou o bem dos outros também nos afectam profundamente e é nosso dever de Europeus o dar ajuda e testemunho de paz e de tolerância. Entre a vida e as bombas, venham elas de onde vierem, não pode haver hesitação!

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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