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Novas bandeiras - precisam-se...

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A passagem de Le Pen à segunda volta nas eleições presidenciais francesas foi um choque para muita gente e levou a uma série infindável de análises nos jornais e televisões. A preocupação e o repudio foram uma constante. Curiosamente para alguns, a esquerda e a direita portuguesa estiveram, neste caso, em completa sintonia. Este facto, sendo de louvar pelo apego à democracia e pela rejeição dos extremismo, não deixa, contudo, noutra perspectiva, de ser algo preocupante. Preocupante porque tem sido precisamente em virtude de algumas outras convergências ao centro que se tem mantido o tão falado pântano politico por esta Europa fora. Enquanto não houver uma nova direita e uma nova esquerda ambas com projectos claros e distintos tudo continuará na mesma e a tendência continuará a ser a deste resvalar para os extremos políticos frutos da ignorância e do desespero. Não basta pois procurar as causas de tão alta votação na extrema direita apenas na insegurança pública ou na emigração massiva que tem invadido a Europa. É preciso ir mais longe e encontrar as causas mais profundas deste mal estar generalizado da nossa civilização ocidental. Todos sabemos que vivemos numa sociedade materialista onde a falta de valores morais e éticos é por demais evidente; não esqueçamos, porém, que precisamos deles tão somente porque não sabemos amar e porque aceitamos a vida apenas como mera contingência. Os partidos de centro esquerda e de centro direita vão-se sucedendo no poder sem que nada mude de substancial na vida das pessoas. A secularização total da sociedade avança com uns e com outros e ninguém reivindica um projecto novo de ruptura com este estado das coisas. Poder-se-ia pensar que este centrismo aparente das politicas ( o tal "fim da História" ) poderia ser benéfico e revelar uma convergência efectiva entre os dois pólos moderados do espectro politico para a resolução dos problemas mais candentes das sociedades desenvolvidas, mas a prática diz-nos que não. Revelou-se sim num "cinzentismo" politico, fruto em parte da derrocada das ideologias, mas também dum certo humanismo intelectual a que alguns já chamaram "a sabedoria do desespero", que, em conjunto, têm sido o caldo de cultura para o renascimento de todos os extremismos e que têm feito aumentar, paradoxalmente, a desconfiança política entre a esquerda e a direita tradicionais e dos cidadãos em geral em relação a ambas. A esquerda continua a pensar como há vinte ou trinta anos, achando que ser de esquerda é recusar qualquer ligação aos valores espirituais e pensando que a direita ainda está na fase arcaica do conservadorismo e do clericalismo; esquece-se por exemplo que um dos líderes europeus da extrema direita é homossexual assumido e nem por isso perde a popularidade junto dos seus seguidores; ignora que há uma direita esclarecida que condena o neo-liberalismo económico e que está disposta a acompanhar os avanços sociais; desconhece que o facto de se pertencer a qualquer movimento religioso ou espiritual não significa, hoje em dia, de forma nenhuma, que se seja retrógrado em termos sociais e de direita politicamente. A direita, pelo seu lado, ainda pensa a esquerda como algo que vem da guerra fria e do marxismo-leninismo; pensa-a incapaz de ter uma visão menos colectivista da sociedade e acredita que ainda esteja enfeudada ao materialismo dialéctico; acredita também que continua a ser essencialmente anti-religiosa e totalmente bloqueada de qualquer tipo de ligação ao transcendente.
Enquanto estes equívocos permanecerem na nossa sociedade ocidental aqueles que acreditam que se pode ser e actuar de forma diferente serão sempre segregados por uns e por outros. Há, assim, que inventar uma nova esquerda e uma nova direita que dêem resposta à nova dinâmica económica e social em que vivemos - à tão falada globalização - e que traga de novo para o debate as convicções profundas de cada um, capazes de gerar a fé em novas utopias e o entusiasmo em as perseguir. Nesta necessária "refiliação" politica estou certo que muitos dos que agora pensam pertencer a diferentes barricadas se vão encontrar e outros que agora partilham a mesma se irão separar; é que nada, de facto, ficará como dantes. Talvez se possa então construir a Europa como uma comunidade de cidadãos livres, tolerantes e iguais perante a lei, ligados a valores que transcendem a condição humana e que são superiores à própria vida e obviamente onde a raça, a religião ou a condição social sejam apenas particularidades ou circunstâncias de cada um, num todo que se quererá sempre plural mas harmonioso em todos os aspectos. Se será a nova esquerda ou a nova direita a desfraldar esta bandeira só o futuro o poderá dizer.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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