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Acabo de ouvir mais uma das conversas mensais que o Dr. Mário Soares mantém na Antena 1 da nossa rádio pública. Falou-se, como sempre, da actualidade mundial e ao ouvir aquelas palavras ponderadas e sábias, de um homem que atravessou intensamente as ultimas décadas da nossa história, não pude deixar de pensar como nós, homens no limiar dos cinquenta anos, nos agarramos hoje a estes últimos grandes vultos da politica europeia para não perdermos as referências e nos sentirmos ainda capazes de intervir na sociedade. Só eles, independentemente dos erros que possam ter cometido, nos falam com clareza e sem rodeios e nos apontam, ainda com entusiasmo, metas e caminhos de futuro, apesar da idade e de algum inevitável desencanto. Já não há, para nosso desespero, por esta Europa fora políticos desta craveira intelectual, desta sageza política e desta sensibilidade humanista. À nossa volta, por toda a Europa, pululam pequenos políticos incultos, arrogantes na sua ignorância e vaidosos dos lugares efémeros que ocupam. Trazem-nos receitas velhas, recicladas apenas pelas novas realidades tecnológicas, de mercado e da informação, que bloqueiam o debate das ideias e o abrir de novas soluções para os novos tempos. A Europa, há muito adormecida, acordou assim sonolenta nesta Primavera com lideres cinzentos nos seus principais países, eleitos pelo "pântano" político e social em que se transformou e sem vontade de se levantar para encarar o futuro.
Como muito bem disse Mário Soares o que urge neste momento é debater as ideias antes de encetar as reformas do sistema político. É absolutamente necessário pensar o que é a esquerda e a direita nesta nova realidade social e estabelecer com rigor as fronteiras que as separam, em vez de fazer leis apressadas que alterarão apenas formalmente alguma coisa para ficar, na essência, tudo na mesma. A nível internacional há que deixar de vez a hipocrisia e "chamar os bois pelos nomes". A Europa da liberdade e dos valores humanistas tem que ter uma voz cada vez maior na cena politica internacional. As últimas tomadas de posição públicas de Freitas do Amaral - ele que já exerceu um alto cargo na O.N.U.- contra a invasão da Palestina pelo exercito Israelita, denunciando a passividade cúmplice dos E.U.A., posição partilhada aliás por Mário Soares, são um exemplo a seguir pelos dirigentes europeus. Mas onde estão eles para o fazer com autoridade e firmeza e sem medo de represálias? Que papel neste contexto tem tido, por exemplo, o Parlamento Europeu? Por quanto mais tempo se verá a Europa humilhada pelos Estados Unidos da América e pelos seus aliados israelitas? Por quanto tempo mais estaremos nós, pobres cidadãos, condenados a viver "agarrados" ao rádio, uma vez por mês, para ouvir Mário Soares? É que só nesses, e em poucos outros, parcos instantes conseguimos sair do atoleiro da ignorância e podemos respirar, intelectualmente, um pouco melhor!...

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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