Globalização - que desafios? |
|
|
|
|
A globalização como fenómeno à escala planetária teve na sua génese dois acontecimentos fundamentais: o advento e a rápida expansão das novas tecnologias da comunicação e, na esfera politica, a queda do muro de Berlim, que acabando com a guerra fria transformou o mundo de bipolar em terreno apenas dominado hegemonicamente por uma só super-potência - os Estados Unidos da América( E.U.A.). As fronteiras económicas entre os povos de todos os continentes aboliram-se assim, quase abruptamente, e o capitalismo liberal espalhou-se de forma generalizada comandado por empresas multinacionais com sede no primeiro mundo principalmente nos E.U.A.. O poder politico desta super-potência ficou assim alicerçado na troca instantânea de informação e de capitais que tornaram vulneráveis todos os mercados, particularmente aqueles ainda incipientes como os dos países do terceiro mundo. A capacidade de concretizar politicas económicas diferentes e autónomas num determinado pais ficou seriamente comprometida desde então. Esta passagem a um mundo unipolar como jamais tinha acontecido na historia da humanidade, esta subjugação das economias aos ditames das grandes empresas e dos grandes poderios financeiros trouxe consigo, em primeira instancia, o desaparecimento da vertente territorial da soberania dos estados e de forma mais subtil a adulteração cultural dos povos pela massificação dos esteriotipos sociais do primeiro mundo a todos os povos do planeta, imposta pelos meios de comunicação social e pela pressão fortíssima do consumo. Os acordos comerciais entretanto selados a nível global trouxeram também novas realidades a nível social com a procura dos povos do sul e do leste pela mão de obra pouco qualificada que entretanto surgiu no mundo desenvolvido. Houve assim uma maior circulação de pessoas com surtos de emigração massiva para diversos países da União Europeia e da América do Norte. Esta convivência mais ou menos pacifica entre povos foi fortemente abalada, contudo, pelos acontecimentos trágicos do dia 11 de Setembro de 2001. Uma menor tolerância com os povos de culturas diferentes emergiu e um certo choque civilizacional está agora em marcha. O mundo ficou agora dividido de forma algo maniqueísta entre um eixo do mal e um eixo do bem sob as conveniências de uma só super-potência e parece sobrar já muito pouco espaço para o debate alargado das ideias e para a participação livre e espontânea dos cidadãos. Este estado de coisas reflecte-se inexoravelmente no papel das organizações internacionais a quem cabe zelar pela defesa dos direitos humanos e pela ordem jurídica internacional desde as mais simples Organizações não Governamentais ( O.N.G.) até à grande estrutura da Organização das Nações Unidas ( O.N.U.) ou do Tribunal Penal Internacional ( T.P.I.). Há um risco evidente de que a imparcialidade destas instancias internacionais seja comprometida pela ameaça de veto constante dos E.U.A. e seus aliados de circunstância. Por outro lado há um circulo vicioso que acompanha agora as politicas dos diversos países do primeiro mundo : se por um lado precisam de mão de obra pouco qualificada, dada a crise demográfica que os assola e o nível de vida que precisam de manter, por outro lado largos e crescentes sectores da sua população rejeitam a entrada de novos emigrantes e pedem mesmo o regresso dos já integrados; mas uma politica restritiva desse género é por si só fomentadora da revolta dos povos do terceiro mundo e do terrorismo que a ela está associado. É dentro destes dilemas políticos que começaram a surgir, nos últimos anos, os movimentos políticos e sociais contra a globalização capitalista. Não se pode, contudo, agora, pugnar por uma anti-globalização porque esta se tornou não só decididamente irreversível, mesmo com politicas mais ou menos proteccionistas ou com o fecho das fronteiras territoriais, mas também porque pode e deve ser o principal veiculo na transformação planetária que se deseja. Pode-se assim falar numa globalização alternativa a que muitos já chama solidária. É um desafio que comporta vários tipos e novas formas de intervenção e que deve englobar na sua prossecução o maior numero possível de grupos sociais. Trata-se no fundo de pôr as novas tecnologias ao serviço de uma maior regulação do mercado, de um entendimento mais profundo entre culturas e também de uma maior distribuição da riqueza mundial. Há que incentivar a democracia interactiva geradora de maior participação cívica nas sociedades ocidentais ; a criação de mais pólos de desenvolvimento económico, a nível mundial, para além dos E.U.A., que possam desequilibrar a unipolaridade actual; a ajuda desinteressada ao desenvolvimento dos povos do sul dando-lhes a formação que eles necessitam para poderem explorar os seus abundantes recursos naturais; uma politica de paz alicerçada no entendimento e aceitação das culturas e das religiões de cada povo. Uma tal politica terá que passar mais, no seu inicio, por movimentações sociais e culturais capazes de criarem uma opinião publica sensibilizada e motivada para a levar à pratica, do que por belos discursos nas altas esferas das organizações internacionais. Terá provavelmente que partir de dentro do próprio sistema de valores e de poderes, contrariando na raiz as orientações económicas e os esteriotipos culturais que se querem impor. Aproveitando as facilidades de comunicação, que a globalização oferece, estes movimentos terão inevitavelmente um carácter internacional e serão pensados e levados à pratica em cada local ou país mas sempre com uma visão global e planetária dos problemas. Que bandeiras politicas encabeçarão estes movimentos não é problema que se coloque com premência pois os desafios das novas batalhas do futuro atravessam horizontalmente as sociedades, dizem respeito a todos os grupos etários e profissionais e deitam por terra as concepções ideológicas do passado. Trata-se, antes de mais, de dar de novo uma identidade às pessoas, um conjunto de valores que lhes devolvam a segurança e a fé numa vida melhor no futuro e possa traçar um caminho de paz e harmonia para toda a Humanidade. José Dias Egipto escreve nesta coluna todas as semanas. Acrescentar como Favorito (493) | Refira este artigo no seu site | Visualizaes: 4973
S utilizadores registados podem escrever comentrios. |
||||
| < Artigo anterior | Artigo seguinte > |
|---|








