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O espelho global...

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Longe vão os tempos em que se podia adivinhar com alguma facilidade o estatuto social e cultural de uma determinada pessoa. Os bens imóveis que possuía e a sua localização na cidade ou na aldeia, o automóvel que guiava, a roupa que vestia, o tracto com que lidava com os seus semelhantes, eram sinais suficientes para delimitar territórios e definir posições na escala social. Eram tempos de "vacas magras" , de pouca tecnologia, de regimes ainda pouco democráticos, com grandes fossos sociais e culturais e onde o consumo e a imagem ainda não eram os paradigmas da civilização ocidental.
Hoje em dia tudo mudou radicalmente e, abstraindo uma faixa ainda significativa da população que vive no limiar da pobreza, a democratização avassaladora dos bens de consumo trouxe por arrastamento uma homogeneização dos teres, dos hábitos e das aparências. Quando entramos, por exemplo, num recinto público frequentado pela classe media portuguesa, dificilmente poderemos distinguir as diferenças sociais e culturais entre as pessoas que o frequentam porque estão todas vestidas de igual modo, com o mesmo aspecto "lavado e escorreito" e falam muitas vezes dos mesmos assuntos e do mesmo modo. Este esteriótipo social que se alastra como azeite torna-se assim impenetrável, numa primeira abordagem, a menos que a nossa experiência e argúcia o possa partir em pedaços e consiga assim diferenciar cada uma das suas partes. O que outrora era classificável em meia dúzia de "gavetas sociais" hoje divide-se numa imensidão de matizes tal a tendência vigente para o individualismo feroz e hedonista que faz da nossa sociedade, dita pós-moderna, um mosaico humano complexo. Curiosamente esta complexidade e diversidade aparentes fecham-se como um leque novamente, numa segunda análise, em meia dúzia de tipos sociais reconhecíveis - basta para tal termos alguns dados sobre os hábitos da pessoa em causa. Se soubermos por exemplo que é casado apenas civilmente, que os filhos não tiveram formação religiosa de nenhuma espécie, que entre as frequências memorizadas no seu auto-rádio estão a Antena dois e a Nostalgia, se começou a fumar charuto há poucos anos, se passou a gostar inesperadamente de jazz e a desdenhar da restante musica, se comprou um jeep há dois ou três anos, se frequenta a FNAC e faz disso propaganda, se não gosta de futebol ou se passou a gostar porque é um fenómeno de massas digno de estudo, se diz constantemente mal dos "reality shows" mas sabe vagamente os nomes dos concorrentes, se veste roupa de marca de forma despretensiosa, então já poderemos saber de quem se trata com alguma dose de certeza. Curiosamente, dentro de cada categoria de preferências, há, contudo, um sem número de hipóteses a considerar, variações que por si só podem fazer saltar o dito cidadão para outra categoria de indivíduos. O exemplo que referi encaixa-se bem no de intelectual de esquerda na casa dos quarenta, cinquenta anos e é hoje um dos "bonecos" de maior sucesso social e, por isso mesmo, alvo das mais despudoradas imitações. Mas há também o dos novos ricos, o dos novos pobres, e o daqueles que pensam ingenuamente que não pertencer a qualquer um dos "bonecos". Afinal a globalização da sociedade ainda deixa algum espaço para podermos ser aquilo que quisermos - apenas precisamos de olhar ao espelho e escolher...

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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