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Será que irão compreender a greve dos médicos?

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Aproxima-se uma das maiores greves no sector médico de que há memória em Portugal desde o 25 de Abril de 1974 ; pelo menos aquela que à partida colhe a quase unanimidade das organizações médicas portuguesas.

 

O público em geral está profundamente ignorante e até alheado das razões que fazem mobilizar um sector profissional tão importante da sociedade; compreende-se o porquê de tal alheamento. Muitos anos de propaganda contra o Serviço Nacional de Saúde (S.N.S.) tentaram criar na opinião pública uma imagem distorcida dos cuidados prestados, imagem essa que não corresponde à realidade que os cidadãos constatam quando têm necessidade real de a eles recorrer. Em estudos sérios e idóneos chegou-se à conclusão que, apesar de todas as deficiências existentes, a maioria esmagadora dos portugueses acredita e confia na preparação e eficácia técnica dos médicos do S.N.S. o que aliás é confirmado pelos resultados dos índices de desempenho do sistema de saúde português a nível internacional. Perante o que os meios de comunicação social dizem e aquilo que verdadeiramente sentem, quando estão doentes, os portugueses ficam baralhados e optam por não tomar partido, pelo menos publicamente. Pouca gente sabe, contudo, das inúmeras cartas e mensagens, de toda a ordem, que muitos serviços hospitalares públicos recebem mensalmente dos doentes após a sua alta; são manifestações de profundo agradecimento e até admiração pela forma humana e eficaz como foram tratados. É também frequente vermos testemunhos de figuras públicas que após uma grave doença sentem a necessidade de desmentir perante as câmaras da TV a má imagem que se tenta implantar na mente dos cidadãos sobre a qualidade dos serviços de saúde. Estes factos não têm visibilidade publica e por isso nada são para poder contrariar as notícias bombásticas das aberturas de um qualquer telejornal...
Tudo isto para dizer que foram homens de grande craveira profissional e humana que, após o 25 de Abril, implantaram o S.N.S. e que foram criando os serviços de excelência que existem nos nossos hospitais que ombreiam com os seus congéneres da Europa. Não nos venham agora dizer que só uma gestão privada os poderá melhorar porque não é disso que se trata. Foram homens de grande categoria moral e profissional que pensaram os cuidados de saúde primários, criaram a especialidade de Clínica Geral, elaborando os degraus da sua formação, dando-lhe a dignidade e competência que ela merecia e que hoje dignifica os profissionais que por ela optaram. Pode-se dizer mal dos Centros de Saúde por algumas insuficiências que ainda possuem, principalmente no interior do país, mas quem os conhecer verdadeiramente verá que os profissionais que neles trabalham, na sua maioria, são de grande qualidade e empenho. Foram as más condições de trabalho e a falta gritante de planeamento e organização na área da gestão dos recursos materiais e humanos da saúde que fez com que o atendimento em muitos desses Centros se tenha vindo, progressivamente, a degradar. São essas deficiências de meios humanos que se tenta agora colmatar criando por "artes magicas" médicos de Clínica Geral, esquecendo que estes necessitam de pelo menos três anos de formação para se tornarem verdadeiros Médicos de Família. Não nos venham agora dizer que só uma gestão empresarial poderá pôr a funcionar os Centros de Saúde porque também não é disso que eles precisam.
Se formos por este caminho, deitando abaixo o edifício do S.N.S. que tanto custou a erguer e que inequivocamente deu frutos positivos, então veremos, daqui a uns anos, as profundas desigualdades que surgirão no atendimento dos utentes e os reflexos nefastos no desempenho global do sistema, com a consequente queda de Portugal nas estatísticas da saúde a nível internacional. Quem pagará as consequências serão sempre aqueles que menos poder económico tiverem, numa lógica contrária à que norteou a implementação do tal "tremendo" Serviço Nacional de Saúde. Aqui estão algumas das razões que vão estar na base da greve anunciada. Será que os portugueses vão perceber? O futuro dirá quem irá beneficiar com esta tão propagandeada reforma da Saúde e nessa altura já não haverá margem para dúvidas...

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.

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