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Nunca mais roubei gravatas

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Ao longo daquela tarde de sábado, portanto, roubámos pelo menos cinco gravatas...
 
 

- e ainda acho que o Rui se abarbatou a mais uma ou duas, só pelo prazer de as roubar também a mim, à minha pouca atenção e ao meu desmazelo de ladrão principiante (o que seria, talvez, a última lição do curso).

Não vou gabar-me da importância da minha colaboração: no essencial, fiquei ali à distância a ver actuar o mestre.

Durante uma tarde, roubámos pelo menos cinco ou seis gravatas em algumas das melhores lojas de moda do Centro Comercial Colombo. O Rui tinha sido claro quanto às três regras essenciais da actividade. Em primeiro lugar, é preciso não ter medo, porque os seguranças de um grande centro comercial são como os cães prepotentes: farejam-nos a tremideira à distância e seguem-nos até à casa-de-banho, se preciso for. Depois, há que estar preparado para tudo - alguns lojistas são tão estúpidos, tão amadores, que a sua simples boa-vontade quase os leva a desmontar uma manhã inteira de engendramentos com uma sugestão tão inesperada e impertinente como levantarmos a camisa, para ver se a gravata bate com o cinto, ou erguermos os braços em forma de avião (como se, erguendo-os, nos sentíssemos menos ridículos com aquele pedaço de pano às cores pendurado ao pescoço). Finalmente, é importante saber pedir desculpa - se a coisa der para o torto, a única forma de evitar um escândalo e sair dali sem escala na esquadra de Benfica é pedir muitas vezes desculpa: alegar distracção ou cleptomania, miséria mesmo, mas identificar depressa o funcionário mais sensível da loja e comovê-lo até que ele próprio se sinta culpado pelo facto de andarmos a roubar gravatas no centro comercial mais vigiado de Lisboa.
As restantes regras eram uma espécie de ramificações daqueles três mandamentos essenciais - e, na verdade, eu não teria dificuldades em aprendê-las por mim próprio: primeiro, saber interagir com o movimento flutuante das hordas do fim-de-semana, das famílias passeando os carrinhos de bebés às velhas navegando o seu estertor de morte; depois, centrar as atenções na gravata errada, discutindo ao pormenor o preço, o número mais adequado ao meu pescoço e as pequenas diferenças de tonalidade em relação à série de outras tiras de pano expostas naquela mesma prateleira; a seguir, levar duas gravatas para o vestiário, alegando que a luz da loja dificulta a visualização mental de como aquele laço específico combinará com uma certa camisa azul que lá tenho em casa há meses, à espera do adorno certo; nessa altura, pesquisar muito bem todas as costuras da gravata eleita, em busca dos chips dos alarmes, arrebanhar de um golpe o código de barras e esconder o produto junto ao baixo ventre, preso no cinto e mesclando-se com os enxovalhos formados pela camisa junto à cintura; então, e só então, sair sem pressas, devolvendo a outra gravata com um sorriso atoleimado, assim como de quem se sente parvo só por pensar que aquela coisa lhe iria ficar bem - e mais ainda constrangido por ter andado a fazer perder tempo a um funcionário tão ocupado da loja de moda mais importante de Lisboa. Ao longo daquela tarde de sábado, portanto, roubámos pelo menos cinco gravatas - e ainda acho que o Rui se abarbatou a mais uma ou duas, só pelo prazer de as roubar também a mim, à minha pouca atenção e ao meu desmazelo de ladrão principiante (o que seria, talvez, a última lição daquele curso). Não vou gabar-me da importância da minha colaboração: no essencial, fiquei ali à distância a ver actuar o mestre, arrisquei duas ou três manobras de diversão, para desviar as atenções de lojistas e seguranças, e então saía de cada estabelecimento escrupulosamente ao lado do Rui, ele alto e sereno na sua condição de gangster experimentado, eu orgulhoso e de passo miudinho, inquieto por que aquilo acabasse depressa.
Mesmo quando nos reunimos para contabilizar o pecúlio da tarde, eu era ainda o desajeitado aprendiz de feiticeiro, misturando as fórmulas e as palavras mágicas, e ele o génio da lâmpada encantada, que um dia roubaria para mim as três coisas que eu mais desejasse de todas as lojas daquele centro, erguido em honra de todos os chico-espertos do mundo - e, por inerência, dos seus melhores amigos. Estávamos no Volkswagen Golf TDI dele, cedido pela empresa em conjunto com um telemóvel topo de gama e um número astronómico de senhas de gasolina, e eu lembrei-me de fazer a pergunta que menos importava naquilo tudo - quando o que interessava era o acto de roubar em si mesmo, não os sonhos materiais que ele poderia realizar. Mas saiu-me: "Porque é que andámos a roubar gravatas, Rui?". Então, ele olhou-me de soslaio, ajeitou os óculos Gianni Versace no rosto e repreendeu-me: "Olha lá, mas achas que eu ia andar a comprar gravatas a doze contos?... Mas eu sou algum department manager, ou quê?!" Depois guardou quatro exemplares no porta-luvas e deu-me um a mim - afinal ele era o yuppie que nunca dizia uma palavra em português quando podia dizê-la noutra língua qualquer, e eu apenas o jornalista que só usava gravatas em festas de casamento (e ainda por cima me apertavam o pescoço a partir do sexto whisky).

Isto foi há mais de seis meses. O Rui mudou-se entretanto para o Norte, como department manager de um grupo de discotecas do Porto, e eu cá continuei a minha vidinha pacata de jornalista desgravatado, embora recorrendo mais vezes aos aperta-pescoços do que aquelas que na verdade gostaria - simplesmente um homem chega a uma altura na vida em que se põe toda a gente a casar ao mesmo tempo (e, bem vistas as coisas, aquele pedaço de pano já tem quase a história do Santo Sudário, pelo que deve ser respeitado nas horas que o costume lhe atribuiu). Tenho sorte com uma coisa: juntando a gravata roubada naquela tarde com o Rui às duas que trago do tempo da faculdade, mais as quatro ou cinco que me foi oferecendo a minha mulher, esperançada em que um dia eu também viesse a ser manager de qualquer coisa, muito dificilmente usarei duas vezes o mesmo laço num só Verão. Nunca mais roubei gravatas, portanto.
No outro dia, porém, dei por mim a desviar um autocolante, daqueles que colam dos dois lados, das prateleiras do hipermercado Continente. Não sei porquê: precisava de um autocolante para prender o identificador da Via Verde ao pára-brisas do meu novo Fiat Punto TDI e, de repente, achei descabido pagar seiscentos escudos por uma caixa inteira deles, quando um apenas me bastava - e por muitos anos duraria, que isto de mudar de carro demora normalmente os quatro anos da amortização de um crédito. Não foi bem um roubo, note-se: a caixa estava semiaberta em baixo, assim um tanto amarfanhada, e pelas frestas espreitavam duas ou três daquelas tiras colantes de que eu só precisava uma. Mas fui escrupuloso: não tive medo, preparei-me para tudo e decorei de imediato o mais sentido pedido de desculpas, para o caso de um repositor transviado ou uma câmara de segurança detectarem a malandrice. Não precisei de andar a discutir preços, que os hipermercados não têm interlocutores para isso, nem sequer levei dois autocolantes para um vestiário - mas tive cuidado em verificar que o produto do meu roubo não tinha códigos de barras nem chips de alarmes. Depois, enfiei a tirinha no bolso, fingi-me distraído com umas quantas prateleiras em redor e agarrei numa caixa de pastilhas elásticas, para dar credibilidade à visita. Paguei as pastilhas e saí sem remorsos.
O identificador da Via Verde andou colado ao pára-brisas do meu TDI até anteontem. Nesse dia, a meio de uma viagem banalíssima para a Costa da Caparica, a ver se bronzeava o rosto de forma a ficar ao menos com uma leve aparência de um manager regressado de férias, fiz uma curva para a esquerda e estatelou-se-me o identificador sobre o tablier - com grande susto para a minha mulher, que dormitava ao sol tórrido daquela imensa fila de automóveis e entra muito depressa em pânico com os desmandos do trânsito. Agora, sempre que passo numa portagem, tenho de erguer o identificador na mão direita, encostá-lo ao vidro, esperar pela luzinha verde do semáforo e voltar a colocar aquela incómoda caixinha de plástico no porta-luvas.
Enfim.
Entretanto, já deitei o olho a uns óculos Ray Ban na vitrina de uma óptica aqui ao pé de casa.

Joel Neto
Lisboa, 24.07.01
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