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Isabel pegou na última Nova Gente, rasgou-lhe duas folhas e foi atear a lareira. Sandra olhou para mim e pôs o seu ar de: "Estás a ver, amor? Lá em casa acendemos o lume com o Público..."
 
 
Quando ela nos mostrou o sofá ocre, brilhando ao centro de uma sala Luís XIV, explodimos os quatro em uníssono: "Que giro!" Não era assim tão bonito - era apenas uma poltrona de pele de pêssego, tingida de ocre e toscamente colocada numa sala Luís XIV, como se estivesse ainda à procura do seu lugar na casa. Mas tudo aquilo era tão surpreendente, tão pesado e surpreendente numa jovem urbana do terceiro milénio, que ao vermos finalmente uma peça do nosso agrado, no meio de toda aquela parafernália de arabescos e motivos religiosos, desfizemo-nos em elogios rasgados. Então Isabel percebeu o nosso constrangimento, a sua origem e o seu delicado equilíbrio, e a partir dessa altura o entusiasmo com que nos mostrava a casa era ainda maior, percorrendo com pormenor as assoalhadas, subindo e descendo escadas, enunciando projectos, expondo os trâmites de cada opção estética. Falava muito: falava do noivo e do gosto comum pela talha dourada - dizia-o mesmo assim, "talha dourada", como se gozasse ela própria com o seu gosto estrambólico -, falava dos planos de casamento e das listas de prendas que espalhara pelas lojas de Lisboa, do grelhador no quintal e de uns curiosos bonecos de louça pirosa que comprara para a sala, umas reproduções dos sete anões que urinavam um feixe de luz quando ligados à corrente. "Vêem? Parece que estão a fazer xixi, mas é só da luz. O futuro é isto: coisas que parece que estão lá, mas afinal não estão..."
As mulheres, pude percebê-lo, sentiram-lhe algum desprezo. Estavam demasiado seguras dos seus conceitos de beleza, demasiado convictas de que a decoração perfeita se fazia dos mesmos ingredientes das suas vidas perfeitas e pequeninas, e uma jovem bela e educada decorar uma vivenda de sonho ao estilo esmagador do Rei-Sol era mais ousadia do que podiam aguentar. Para mim, naquele momento, Isabel não significou nada. Eu já vira todo o tipo de pessoas, todo o tipo de homens e de mulheres, e reencontrar uma colega de faculdade tão envelhecida e segura do seu destino de esposa dilecta em casa de talha dourada era, para o meu céptico espírito, pouco mais do que um aborrecimento. Então Isabel regressou da cozinha com uma travessa de pastéis de nata, cinco pratinhos com baixos-relevos e uma bandeja de guardanapos floridos, e o pelotão de fuzilamento puxou atrás as culatras. Sandra perguntou quando era afinal o casamento, com desdém, e ela desconversou: "A minha mãe está louca com a casa. Vem limpá-la todas as semanas". Marta e Lurdes voltaram com o vestido da noiva, comentando com ironia a tarefa de encontrar "peças de bom gosto", e a rapariga mudou novamente de assunto: "Agora estou a pensar comprar um cão..." Então pegou na última Nova Gente, rasgou-lhe duas folhas e foi atear a lareira - e quando Sandra olhou para mim com aquele seu ar de: "Estás a ver, amor? Lá em casa acendemos o lume com o Público...", eu engoli em seco, fechei os olhos e desejei que uma força maior do que o Mundo me tirasse dali depressa.
No momento em que voltei a sintonizar aquela sala, regressado de mais uma digressão mental pelos mapas de vendas, planos de marketing e consumidores apressados que me esperavam no escritório, as mulheres estavam em pé debruçadas sobre a nossa anfitriã, e nos seus olhos arregalados havia todo o espanto e toda a culpa de quem tinha levado longe de mais a brincadeira. A princípio não percebi o desconforto, mas a certa altura Isabel gritou: "Não há noivo nenhum, ok? Morreu com sida, e eu sou a próxima! Estão contentes?!" Durante uns minutos fiquei ali parado, as mulheres desfazendo-se em desculpas, ela ganhando fôlego para explicações, e a promessa de novos pormenores sobre essa extraordinária vida de alguém que recomeça sozinho provocou-me pela primeira vez algum interesse naquela tarde. Mas então Isabel levantou-se, respirou fundo e retomou a primeira conversa como coisa que nada fosse. Nem enxugou as lágrimas: levantou-se de um só gesto, ajeitou um aplique na parede e voltou sem hesitações à vivenda em talha dourada e aos bibelôs dos sete anões, ao grelhador no quintal e ao futuro. Falou de um terreno que pretendia comprar como investimento, de uma dieta que começara poucos dias antes e até da recém-adquirida intenção de adoptar uma criança, e quando nos viu aos três de testa franzida, muito hirtos e esbugalhados na nossa imensa surpresa por o noivo e a morte e a doença simplesmente terem desaparecido do discurso, fez um trejeito de ombros e gemeu: "Temos de continuar com a vida, não é?"
Hoje em dia, ultrapassados os sete cancros, uma leptoespirose e a gripe assassina de que sofri ao longo do último ano, raramente acendo o Dunga, o meu anão surdo-mudo que urina feixes de luz quando o ligo à tomada eléctrica. Mas tenho-o ali, sobre a sapateira, e, sempre que dou por mim às voltas com a angústia de quem descobriu que não é eterno, lembro-me de Isabel e da frescura com que enfrenta o pouco que lhe resta. Ela deu pela falta do boneco, claro, mas antes de questionar qual de nós lho surripiara deve ter chegado à conclusão de que, mesmo ausente, o anão ainda estaria ali no sítio de sempre, assim como o mijo que expelia parecia estar onde afinal não estava e o noivo da dona ainda respirava o ar que o sufocara. E, como hoje ambos sabemos, é isso o futuro.

Joel Neto
Lisboa
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